quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Tomando o norte

Me dou o prazer de fechar os olhos e me devolver para tua cama. Às vezes até sem esperar quando dou por mim, estou lá de novo, estou te ensinando a se libertar das amarras que eram tuas roupas. Estou te mostrando como funciona a química das peles. Estou lá nos teus lençóis com cheiro de gozo, lambuzado. Quando menos espero já fiz uma viagem no tempo e sou capaz de ressentir novamente tua língua divagando sobre a minha pele.

Abro os olhos e o vazio, dói, os fecho novamente e te busco nesse lugar mágico onde estas agora. Esse lugar mágico onde és só minha, tua língua, tua pele, tua boca, teus cabelos, tuas unhas tudo em ti de novo é para mim uma fonte inesgotável de doçura. Até quando me permitias meus minutos de vilanias, eras para mim.

Volto no tempo, volto o mundo, volto o amor, mas o amor não volta. Há em mim, sob a pele, um desejo sem tamanho pela frequência da tua cama, e tua cama, cadê? Onde está? É quase como querer voltar para casa dentro de um sonho repleto de brumas, eu sei o caminho, eu sei o sabor, o cheiro, mas cadê? Onde está a casa? Onde posso enfiar meus dedos e aquecê-los? Cadê o conforto da tua casa onde eu posso ser eu, e vibrar a cada minitoque, a cada expectante sorriso enviesado teu?

Esses momentos em que te volto, te trago e te sonho, são poucos do quase nada que a gente viveu. Do que a gente escondia do mundo, do mundo que não nos permitia. Gosto de me esconder ainda do mundo e buscar na minha pele cada marquinha de língua que deixastes e até de dentes também, lembro os lugares sensíveis que descobristes, estremeço. Gosto de tocar meu corpo, lembrando os caminhos da mão que me fizeste percorrer.

Sei que eu ainda não sabia exatamente o que fazer. Mas na minha ignorância, brincaste bem mais do que eu permitiria. Tenho que abrir os olhos. Sei que tudo é passado e quando fecho os olhos sonho uns futuros meio loucos de a gente de volta de mãos dadas pelo mundo, mandando todos os porquês e diferenças à merda.

Tenho que abrir os olhos, a hora vai bater, o tempo vai chegar, a minha casa, onde eu me enfiava e cabia perfeitamente se perdeu na bruma, o hoje é um lugar inadequado, mais inadequado do que a cama em que a gente descobria as partes do corpo do outro. Mais inadequado do que saber que toda a tua família estava lá embaixo assistindo TV. Ou que em minutos nos chamariam para o jantar. Mais inadequado do que o banheiro da escola para onde a gente fugia tentando manter os outros longe, se esconder dos olhares juízes.   

O conforto não era nosso maior prazer, talvez o que mais nos impulsionava era saber que alguém poderia ver, nos intuir, nos sacar, ver nos nossos rostos as intenções sacanas, nossos risinhos de promessas. Eu sabia que ninguém ao nosso redor era burro a ponto de não perceber o que fazíamos ou como nos entretínhamos naqueles infindáveis trabalhos de fim de semana, naquelas infindáveis horas de descobertas por autores e bandas.

Eu sei que meu pavor maior, embora muitas vezes cogitado, embora muitas vezes descartado, era sermos descobertas. Foi aquele riso cínico da tua tia, como quem diz entender o que acontecia, que me fez responder feito gato acuado. Sim, eu pirei, sim a culpa é minha. Sim, eu fugi ainda que em nossas promessas eu parecesse a mais corajosa de nós.

Sei que hoje há um cerco ao teu redor, primos, tios, irmãos, te buscam, te trazem, me afastam com olhares, mas não podem me impedir de te encontrar quando fecho os olhos e eu fecho os olhos com frequência, muita frequência. Fecho os olhos sozinha, fecho os olhos com ajuda, qualquer ajuda, de um xaropinho qualquer e até com as recentes pedras baratas que me fornecem sem perguntas, o importante mesmo é fechar os olhos, te manter perto de mim.

De olhos fechados eu vejo os teus seios, fecho os olhos para beija-los e sentir teu gosto, fecho os olhos para agarrar tuas coxas, fecho os olhos para pressionar meu joelho entre as tuas pernas e te sentir abri-las, quentes, molhadas. Fecho os olhos e mordisco a tua barriga, fecho os olhos e sinto o gosto do teu corpo e entro em transe de olhos fechados nos teus estremecimentos, eu gozo agora quase sempre sem ninguém, de olhos fechados.

É pra ti cada gozo, é pra ti cada sonho. Futuro não existe, apenas o prazer de agora em fechar os olhos.


Marcia Lima