terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Olhos de farol

Remexo num sono inquieto, reviro e volto ao mesmo lugar.
Uma sensação de frio e desconforto me toma, como desejos insatisfeitos. 
No frio de abandono, que o corpo treme, preciso de satisfação.
Mãos e pés tateiam em busca de algo, o vazio ao lado na cama se agiganta.

O quarto escuro parece um poço sem fundo, eu não consigo respirar, não encontro o ar.
Algo dentro de mim precisa sair, ou pior, desejo alguma coisa externa que não me pertence.
Acender a luz não adianta.
Procurar o telefone me atormenta.
Não quero e quero ainda mais.
Chego a sentir o cheiro do meu sonho/desejo espalhado pelo quarto.
Não posso, não devo.
Começo a me odiar, por desejar tão profundamente algo que pelos cálculos, pelas análises frias, nunca bate, nunca fecha.
O corpo grita por uma satisfação que conscientemente não preciso.
O suor frio que escorre pelas costas e molha a testa provoca calafrios, como em abstinências.

O telefone grita. 
É como se ele tivesse ouvido o chamado, como se o meu desejo vibrasse na energia dele também.
Nem respiro, nem penso.
Vem.
O vazio se acaba, o desconforto se esvai.
O desejo todo vira dúvida: Quero/não quero. Devo/não devo.
Mas o corpo, a pele, não tem juízo.
Ele veio!
Me forço a parar de pensar quando percebo que não sei o que fazer, como agir. Sei que as palavras não terão sentido. Ficaram presas no limbo entre o que desejo e o que sinto, o mais provável é que causem mais confusão.
O corpo não pensa.
A luz acesa me delicia, como se só os olhos dele pousados em mim, me tornasse visível.
Um arrepio, uma satisfação ainda que apenas de expectativa.
Eu sei que o chamei. 
Eu sei que o quis, quis tanto que ele ouviu e veio, mas ao mesmo tempo estou petrificada, sem ação.
Por onde começar? O que fazer?
Sorrir?
Tenho consciência de não saber que mensagens meus olhos emitem, estou atordoada com tudo que sinto e tudo que me trava.
Acho que ele sabe, que entende. Não sei.
Ele se aproxima e busca a minha mão, me traz para os braços.
Estou toda e completamente vazia de ações. É estranho e difícil não ter ações, não pular, não exigir, não rir.
Mas mesmo estranhando, ele me conhece! Ele me conhece!
Ensaia uma dança, move nossos corpos, começo a me largar nele, vou destravando ao seu toque, relaxando ao contato de sua boca.
Ele me conhece!
Dançamos uma dança nossa, com a música que só existe em nossa cabeça. Sua mão escorrega pelos braços, sua boca desce pela pele visível do colo.
Inspiro, expiro.
Sou essa mulher.
Sou essa que derrete aos toques.
Suspiro.
Esqueço todos os tormentos.
Ele está!
Sou agora uma massa movida por uma música que não existe, carregada pelos toques que me acedem, me revivem, me resgatam da escuridão.

Reencontro o ar na boca dele.
A dança nos leva à cama, devagar.
Não há pressa, nem palavras.
O encontro é de encaixes, a mão alcança os lugares a que pertence. As carnes tem a marca e se entregam às mãos que a tocam.
Sinto, desejo, quero.
A cama já não é mais assustadora.
Existe oxigênio para qualquer ação mais enérgica.
O quarto finalmente está iluminado.
São os olhos dele que acendem tudo ao redor.

Marcia Lima

03/02/2015