terça-feira, 18 de março de 2014

O medo Grand'Hotel

Ela debatia-se na cama, suando, ansiosa. A cabeça dizendo não e sussurros incompreensíveis escapando dos lábios. Ele acordou assustado. Chamou. Sacudiu-lhe o corpo e ela deixou escapar um grito: "caminhão, cuidado".

- Acorda, acorda Laura. É só um sonho.

Ela abriu os olhos, ainda que não parecesse realmente acordada. Agarrou-se a ele como se estivesse tendo uma visão:

- Eu tenho medo do caminhão, por favor, cuidado com o caminhão - uma mistura de sussurro com choro.

- Laura, não tem nenhum caminhão. Estamos em casa.

Não que fosse exatamente a casa deles, de ambos, estavam no apartamento dele. Era apenas a terceira vez que ela dormia lá e ele achou que talvez por isso ela pudesse estar assustada.

Ela puxou o ar, fundo. Parecia mais desperta agora. Ele abraçou mais forte.

- O que você estava sonhando?

Deitou-se e a trouxe junto ao peito.

-Não lembro direito. Por quê?

- Parecia bem ruim, você estava realmente assustada. Falou em caminhão, pra eu ter cuidado.


Fora uma daquelas ativas e quentes madrugas. Daquelas que parecem querer provar que nenhum caminhão de várias toneladas poderia atropelar tanta paixão.

- Falei?

- Sim, não consegue lembrar?

- Não, ela começou a cheirar e beijar o peito dele.

Ele reagiu automaticamente.

- Nossa, não sabia que pesadelos poderiam ser excitantes - e riu.

Ela continuava beijando e roçando o corpo no dele:

- Vai ver eu tenho medo que um dia o caminhão atropele a paixão.

Ela riu alto e continuou o que estava fazendo. Parecia muito disposta a esquecer o que quer que tivesse sonhado. 


Ninguém lembrou do sonho duas semanas depois, quando uma grande van de entregas de cervejaria perdeu a direção e avançou na contramão sobre a faixa de pedestres. Três pessoas foram  gravemente atingidas. Só ele não sobreviveu.

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