sábado, 13 de dezembro de 2014

Voo no tufão

No meu primeiro dia lá, fui recebida com um “nunca vi você por aqui” e sorrisos efusivos de boas vindas. Nesse dia, ele esqueceu a bermuda e o agasalho na praia. Disseram que quem esquece é porque quer voltar. Eu sorri sem graça.
No segundo, ele veio buscar suas roupas e finalmente aceitou, o sempre recusado, convite para almoçar, ficou por aqui a tarde inteira. Depois que ele foi embora encontramos um sei lá o quê da prancha largado no jardim. Eu sorri meio surpresa, meio feliz e os donos da casa se entreolharam.
No terceiro dia, ele chegou sem graça. Numa espécie de consenso geral era eu quem deveria lidar com ele, aceitei o papel. Estendi o equipamento, ele o pegou da minha mão e caiu no mar. Muitas manobras depois, voltou, ao que tudo indicava nossa companhia lhe era agradável.
Quando ele foi embora, revirei nossos pertences, o jardim, a casa. Dessa vez, nada foi propositalmente largado, nenhuma desculpa mais. Apenas eu, perdida no meio daqueles sorrisos e olhares, e um certo desalento me roubou o riso.
Ao raiar do novo dia, sem nenhuma esperança olhei o caminho da praia e lá vinha ele, sorriso torto, meio amarelo, que encontrou o meu, divertido, aquecido, esperançoso. Pus as mãos nos quadris "O que você esqueceu dessa vez?" Era pra ser uma brincadeira. Virou um desafio. Se aproximou do meu degrau na escada sem subir e disse me olhando nos olhos "Você".


Depois disso, era um tal de esquece roupa, que tive que abrir uma grande espaço para as roupas que ele largava, mas o que ele mais esquecia era a hora de ir embora. Ia ficando, e quando partia, voltava rápido. Quase nunca lembrava de levar tudo que era seu.

Foram noites a luz da lua, sob as estrelas, fins tarde de um tempo sem pressa, de areias correndo livre de ampulhetas. Um tempo de riso em que tudo era possível até algo tão grande como amor e futuro. Ainda que a liberdade do que acontecia não permitisse conversas sérias, ou o fato de ser um tipo de férias eternas, não permitia saber quando e onde ou como obter segurança.

Mas não se podia esperar muito de alguém tão esquecido, movido, quase sempre, pelo vento. Chegou o dia em que ele teve muito trabalho e se esqueceu de voltar e eu sempre com o olho comprido no caminho da praia, com o olho comprido no céu em busca de condições de tempo em que ele pudesse navegar.

Não chegou o tempo e o tempo mesmo até passou.

Dessa vez ele tinha esquecido, mas era de voltar.


Nunca mais olhar o mar e ver pipas voando despertou o mesmo riso. 

terça-feira, 18 de março de 2014

O medo Grand'Hotel

Ela debatia-se na cama, suando, ansiosa. A cabeça dizendo não e sussurros incompreensíveis escapando dos lábios. Ele acordou assustado. Chamou. Sacudiu-lhe o corpo e ela deixou escapar um grito: "caminhão, cuidado".

- Acorda, acorda Laura. É só um sonho.

Ela abriu os olhos, ainda que não parecesse realmente acordada. Agarrou-se a ele como se estivesse tendo uma visão:

- Eu tenho medo do caminhão, por favor, cuidado com o caminhão - uma mistura de sussurro com choro.

- Laura, não tem nenhum caminhão. Estamos em casa.

Não que fosse exatamente a casa deles, de ambos, estavam no apartamento dele. Era apenas a terceira vez que ela dormia lá e ele achou que talvez por isso ela pudesse estar assustada.

Ela puxou o ar, fundo. Parecia mais desperta agora. Ele abraçou mais forte.

- O que você estava sonhando?

Deitou-se e a trouxe junto ao peito.

-Não lembro direito. Por quê?

- Parecia bem ruim, você estava realmente assustada. Falou em caminhão, pra eu ter cuidado.


Fora uma daquelas ativas e quentes madrugas. Daquelas que parecem querer provar que nenhum caminhão de várias toneladas poderia atropelar tanta paixão.

- Falei?

- Sim, não consegue lembrar?

- Não, ela começou a cheirar e beijar o peito dele.

Ele reagiu automaticamente.

- Nossa, não sabia que pesadelos poderiam ser excitantes - e riu.

Ela continuava beijando e roçando o corpo no dele:

- Vai ver eu tenho medo que um dia o caminhão atropele a paixão.

Ela riu alto e continuou o que estava fazendo. Parecia muito disposta a esquecer o que quer que tivesse sonhado. 


Ninguém lembrou do sonho duas semanas depois, quando uma grande van de entregas de cervejaria perdeu a direção e avançou na contramão sobre a faixa de pedestres. Três pessoas foram  gravemente atingidas. Só ele não sobreviveu.