quarta-feira, 26 de junho de 2013

Pesadelos

Não havia jeito daquele sentimento abandoná-la, era como uma compulsão, uma espécie de loucura, neurose mesmo. Era só o sol se pôr, e o suor começava a escorrer, muito mais do que em qualquer dia quente. Nunca soube ao certo o dia exato em que começara a ter esses temores. Mas sempre que a noite caía começava a suar e temer a hora de ir dormir. Só que o problema maior não era o medo. Se fosse poderia correr para a cama dos pais e se sentir protegida.
Mas não, seu problema maior era enfrentar e esconder esse medo. Já era quase adulta, tinha nove anos, não achava nem um pouco justo que toda a família percebesse seu terror de dormir. Afinal, eles já tinham seus próprios fantasmas. Isso ela podia perceber bem, pelo modo como a mãe, às vezes, gritava com ela, ou pela impaciência com a qual o irmão mais velho entrava e saia de casa, e também pelas coisas incompreensíveis que falavam, que a faziam pensar em cadeia e tortura, palavras quase sem sentido, mas pelo tom sabia que não era bom.
Era sempre à noite que via o pai sair para a “reunião”. O que fazia sua mãe chorar e pedir, chegando até a implorar algumas vezes, que não fosse. Mas ele tinha convicção:
-           É preciso fazer alguma coisa – ele sempre repetia antes de sair.
Ela sempre lembrava o tempo em que as saídas dele não eram tão dramáticas. Talvez tivesse a ver com a greve. A greve que segundo o pai tinha que acontecer. Ela o ouvia falar sempre: “Assim, não dá mais para continuar a viver”.
Mas antes, antes o pai da Carol não tinha morrido durante a noite. Antes a polícia não tinha invadido a casa da Carol e atirado no pai dela. O pai da Carol era um senhor barrigudo que sempre vinha em casa beber com o pai dela.
Tá certo, ela não era muito amiga da Carol, achava a Carol meio bestinha com seus cuidados com o cabelo e o sutiã que de nada servia, mas que adorava exibir. O problema é que não achava certo que mesmo a menina bestinha tivesse acordado uma noite com os gritos da mãe e que tivesse entrado no quarto e visto os miolos do pai espalhados pelo lençol.
Então percebeu, foi só a partir desse relato que começou a temer as noites, a perceber os rumores diferentes em casa, a tensão da mãe e do irmão. Numa associação absurda achava que era só durante a noite que coisas ruins aconteciam, que homens maus invadem casas e matam as pessoas que amamos. Então sempre que a noite caía, as mãos começavam a suar, a testa, os pés.
Tanto suor a fazia vítima, os pés suavam tanto que sempre escorregava na chinela. Costumava cair, pois a chinela, molhada demais, impedia que se mantivesse sobre ela. A cada queda, um escândalo, ralava os joelhos, via sangue e chorava. Chorava mais pelas lembranças que o vermelho evocava do que pela dor que lhe causava as palmadas da mãe que a mandava não correr, ou o sabão e o líquido vermelho que ardia e a mãe sempre punha nas feridas.
De repente, o medo começou a ficar pior. Uma manhã já tinha medo que a tarde chegasse porque em seguida a noite viria. Outra vez deixou todas as luzes acesas e mesmo assim não conseguia dormir, ouviu barulhos na porta e pulou da cama. Colou os ouvidos na parede e o ouviu entrar balançando as chaves como de costume. Podia voltar para a cama o pai estava de volta a casa.
A cada dia ficava mais incapaz de controlar o suor e o medo. O terror e o desespero. Tinha pesadelos com arrombamentos, com botas, soldados e sangue espalhado em lençóis brancos. Um dia a mãe levantou-lhe o rosto e perguntou se ela não dormia mais.  Ao olhar a mãe percebeu que não era a única a não dormir. Tinha medo, mas não era só ela que tinha medo. Todos tinham, o pai também tinha. Sentia isso, quando todo dia ao chegar em casa a abraçava com mais força. Como se despedisse um pouco a cada dia. Ela sempre ouvia aquelas conversas que a assustavam. 
Até que uma noite acordou com gritos e som de coisas sendo quebradas, tiros. Mais gritos. Alcançou o quarto dos pais e os viu. Viu o irmão mais velho jogado no chão desacordado, o pai morto na cama, o sangue, mas não era mais um pesadelo. Ou então era um pesadelo com cheiro, e dor, porque quando tropeçou no tapete pôde sentir e muito a dor no pé.
Era real.
Ela não iria acordar e ficar aliviada por ter que passar mais um dia esperando por aquilo. Não, estava acontecendo. Sentou num canto do quarto e começou a rir. Rir, de alívio, de felicidade mesmo. Não havia mais o medo de matarem seu pai, ele estava morto. Não havia mais o medo de invadirem a casa, ela estava arrombada. Estava lá. Tudo tinha terminado. Por isso ela ria. Ria com tanta vontade, como já algum tempo não fazia.
Ria.


Márcia Cristina Lima
             08/08/2001

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