quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Assassínios

- Eu o matei - ela gritou, ao mesmo tempo, que bateu o copo no balcão - Eu o matei - repetiu baixinho quando intuiu que todos já a olhavam em busca de uma explicação. Os amigos encararam o último relacionamento dela. Ele observava a cena por cima do taco de bilhar, que tinha parado no meio de uma jogada. Levantou o corpo e esperou ela terminar o showzinho. Uma coisa que ele nunca esperaria dela, sempre tão calma, tão pacífica.

- Eu o matei - a frase agora cuspida declarava que o nível alcoólico já não permitia total controle dos lábios - Eu não agüentei mais - a raiva deu lugar ao choro - Eu precisava me livrar dele. Não suportava mais essa indiferença. Essa mania de me fazer esperar. Essa loucura de me sentir coisa, de achar que eu sempre estaria disponível, que eu sempre podia esperar por sua boa vontade, seu tempo, disposição. Cansei de não ser prioridade. Eu quis que ele sentisse dor. Eu quis... – mais lágrimas – Eu o fiz sangrar, eu fiz com que ele conhecesse como era a dor de esperar indefinidamente pela atitude de alguém, pela ação, carinho, afeto. Mostrei a ele. Ele morreu olhando nos meus olhos. Eu me vinguei!

Algumas amigas tentaram se aproximar para evitar um vexame maior. Ela levantou as mãos.

- O primeiro tiro foi o mais difícil. Foi o mais trêmulo. Os outros dois foram escape perverso. O restante da munição foi só arrependimento mesmo. Eu o matei. Matei tudo que ele significou na minha vida. O abandono, a espera, a impotência.

Um arrepio subiu pela espinha de todos no bar, como se naquele lugar quente fosse possível um sopro de vento gélido, como se só agora eles tivessem conseguido entender coletivamente o sentido do que ela estava contando. Os amigos voltaram a olhar para ele em perguntas mudas, dessa vez observaram um desalinho de cabelo, meio nada a ver com sua aparência quase sempre impecável.

Ela secou o copo, trêmula - mas ele nem imagina como eu morri junto - as lágrimas saindo aos borbotões - Não sei como consegui sair de lá, não sei como estou de pé aqui. Não sei como ele tem coragem de jogar bilhar e falar com todo mundo ai como se eu não tivesse lhe enfiado seis tiros nas fuças!! – raiva, lágrimas, cuspe.

O silencio no bar era absoluto ninguém percebia nem a falta da música alta.

- Eu o matei, porque só assim eu teria certeza que havia um motivo concreto para ele não responder minhas ligações, para não retornar minhas mensagens. Merda, eu o matei por que o amo tanto, tanto, que se tivesse que viver sem ele que fosse definitivamente. Eu não tinha mais coração, para esse ir e vir, esse não aceitar. Esse querer pela metade. Eu o matei - as palavras escapando da boca junto com mais saliva e dessa vez meio tingidas de sangue.

- Vocês conseguem entender isso? Não, nunca entenderão. Em todos os nossos anos de amizade, nunca me entenderam. A gente vinha para cá e a minha única certeza em todas as semanas em que estávamos juntos era que aqui nos encontraríamos. Aqui beberíamos e, com sorte, eu o levaria bêbado para casa. Quantas vezes vocês não me olharam com pena?
Digam? Não tenham mais pena de mim. Eu não sou mais digna de pena. Olhem para ele - ela apontava para a mesa de bilhar - Seis tiros nas fuças e vem jogar como se nada tivesse acontecido. Não aconteceu, não é?
Eu não tenho coragem, não é? Não tenho amor próprio, sangue nas veias, não é? Olhem para ele. Olhem a minha coragem.

E num reflexo instintivo todos os olhos se voltaram para o rapaz próximo à mesa de bilhar o mais galanteador da turma, o mais boa-praça, o que menos levava a vida a sério, além de bagunça dos cabelos, via-se agora uma palidez acentuada no rosto. Talvez o conhecimento do quanto a ferira finalmente lhe causasse algum susto.

- Vocês acham que foi fácil? Vocês acham que matar alguém é fácil? Não, não é. Vocês acham que é só apontar a arma pra quem te tortura e apertar o gatilho?
Não, não é. 
Ainda mais quando o alvo é a sua vida toda. Quando você também é o alvo, quando você tem a tamanha consciência de que as balas, as seis, não entraram nele, porque ele nunca sentiu exatamente nada que me dissesse respeito. 

Ela voltou a encher o copo, voltou a levar bebida à boca. Voltou a expelir saliva. Quem entrasse agora no bar não entenderia um grupo de pessoas hipnotizadas olhavam de um lado para o outro do bar como se acompanhassem uma partida de tênis.

- Vocês acreditam que ele nem correu? Nem teve medo? Acho que atirei mesmo pela afronta. A última. A última afronta foi esse risinho que ele tem na cara, esse risinho de nunca acreditar em mim. Tá ai. Seis tiros, seis buracos.

Os amigos voltaram a olhar em direção a mesa de bilhar, ele agora estava com as mãos na barriga, numa postura de dor, sangue escorria pela roupa.

- O que foi que você fez? - ele sussurrou.

- Eu o matei - ela sussurrou em resposta - e morri também.

Foi quando voltaram os olhos para onde ela estava e ela também tinha sumido.


José entrou correndo no bar onde a turma da faculdade se reunia todas as sextas há quase quatro anos. Tinha uma notícia terrível para dar: O casal mais problemático entre eles estava morto, a polícia não sabia ao certo, mas parecia crime passional.

domingo, 4 de agosto de 2013

Compreensão

Sempre estou disposta a entender, mas, por favor, faça questão de ao menos tentar explicar. Porque, se eu tiver que adivinhar, tenha certeza não será uma versão boa pra você.
Pelo mesmo motivo que mães quando acordam e não encontram seus filhos em casa, elas não pensam que eles estão na balada se divertindo. Elas acreditam logo que eles correm algum risco.
Não sei que gene é esse feminino que tende logo a crer no pior, mas sei que nasci com esse defeito.
Gosto quando você se esforça para me explicar as coisas, não pela explicação ser necessária. Mas porque nessa hora a sua atenção é toda minha, eu sei que você esta tentando imaginar qual explicação vai me convencer.
Apesar disso, detesto quando você só me dá atenção nessas ocasiões. Às vezes me sinto tão invasiva quando teu silêncio se prolonga e eu não sei exatamente o que está acontecendo.
E no fim de tudo pode nem estar acontecendo nada... E esse maldito senso de controle feminino me faz criar milhões de histórias absurdas.
Não, não sei como eu cheguei até aqui com tantas dúvidas e incertezas, pra dizer a verdade nem sei como você me aguenta com tanta cobrança.
Posso até pedir desculpas pelo rompante agressivo, por ter chamado sua prima de vaca e sua ex de puta. Sei que posso me arrepender de tudo, mas sei que todo esse arrependimento não vai ser capaz de desfazer o que eu fiz.
Mas se você tivesse me dito, se você não tivesse essa maldita mania de me esconder as coisas, e se tivesse me contado que esse era um jantar de noivado, talvez todos vocês agora pudessem me ouvir e ter pena de mim. Eu sou tão patética. Mas não você fez questão de me esconder que “seu evento” de família era a celebração de um compromisso, mas que nem era “seu” compromisso.

Agora nenhuma desculpa vai fazer vocês cuspirem o cianureto da sopa de entrada desse lindo jantar de noivado, e posso gastar todas as lindas palavras do meu vocabulário arrependido, mas nenhuma delas vai me salvar quando a polícia chegar com a ambulância que eu chamei quando percebi o engano. 

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Pesadelos

Não havia jeito daquele sentimento abandoná-la, era como uma compulsão, uma espécie de loucura, neurose mesmo. Era só o sol se pôr, e o suor começava a escorrer, muito mais do que em qualquer dia quente. Nunca soube ao certo o dia exato em que começara a ter esses temores. Mas sempre que a noite caía começava a suar e temer a hora de ir dormir. Só que o problema maior não era o medo. Se fosse poderia correr para a cama dos pais e se sentir protegida.
Mas não, seu problema maior era enfrentar e esconder esse medo. Já era quase adulta, tinha nove anos, não achava nem um pouco justo que toda a família percebesse seu terror de dormir. Afinal, eles já tinham seus próprios fantasmas. Isso ela podia perceber bem, pelo modo como a mãe, às vezes, gritava com ela, ou pela impaciência com a qual o irmão mais velho entrava e saia de casa, e também pelas coisas incompreensíveis que falavam, que a faziam pensar em cadeia e tortura, palavras quase sem sentido, mas pelo tom sabia que não era bom.
Era sempre à noite que via o pai sair para a “reunião”. O que fazia sua mãe chorar e pedir, chegando até a implorar algumas vezes, que não fosse. Mas ele tinha convicção:
-           É preciso fazer alguma coisa – ele sempre repetia antes de sair.
Ela sempre lembrava o tempo em que as saídas dele não eram tão dramáticas. Talvez tivesse a ver com a greve. A greve que segundo o pai tinha que acontecer. Ela o ouvia falar sempre: “Assim, não dá mais para continuar a viver”.
Mas antes, antes o pai da Carol não tinha morrido durante a noite. Antes a polícia não tinha invadido a casa da Carol e atirado no pai dela. O pai da Carol era um senhor barrigudo que sempre vinha em casa beber com o pai dela.
Tá certo, ela não era muito amiga da Carol, achava a Carol meio bestinha com seus cuidados com o cabelo e o sutiã que de nada servia, mas que adorava exibir. O problema é que não achava certo que mesmo a menina bestinha tivesse acordado uma noite com os gritos da mãe e que tivesse entrado no quarto e visto os miolos do pai espalhados pelo lençol.
Então percebeu, foi só a partir desse relato que começou a temer as noites, a perceber os rumores diferentes em casa, a tensão da mãe e do irmão. Numa associação absurda achava que era só durante a noite que coisas ruins aconteciam, que homens maus invadem casas e matam as pessoas que amamos. Então sempre que a noite caía, as mãos começavam a suar, a testa, os pés.
Tanto suor a fazia vítima, os pés suavam tanto que sempre escorregava na chinela. Costumava cair, pois a chinela, molhada demais, impedia que se mantivesse sobre ela. A cada queda, um escândalo, ralava os joelhos, via sangue e chorava. Chorava mais pelas lembranças que o vermelho evocava do que pela dor que lhe causava as palmadas da mãe que a mandava não correr, ou o sabão e o líquido vermelho que ardia e a mãe sempre punha nas feridas.
De repente, o medo começou a ficar pior. Uma manhã já tinha medo que a tarde chegasse porque em seguida a noite viria. Outra vez deixou todas as luzes acesas e mesmo assim não conseguia dormir, ouviu barulhos na porta e pulou da cama. Colou os ouvidos na parede e o ouviu entrar balançando as chaves como de costume. Podia voltar para a cama o pai estava de volta a casa.
A cada dia ficava mais incapaz de controlar o suor e o medo. O terror e o desespero. Tinha pesadelos com arrombamentos, com botas, soldados e sangue espalhado em lençóis brancos. Um dia a mãe levantou-lhe o rosto e perguntou se ela não dormia mais.  Ao olhar a mãe percebeu que não era a única a não dormir. Tinha medo, mas não era só ela que tinha medo. Todos tinham, o pai também tinha. Sentia isso, quando todo dia ao chegar em casa a abraçava com mais força. Como se despedisse um pouco a cada dia. Ela sempre ouvia aquelas conversas que a assustavam. 
Até que uma noite acordou com gritos e som de coisas sendo quebradas, tiros. Mais gritos. Alcançou o quarto dos pais e os viu. Viu o irmão mais velho jogado no chão desacordado, o pai morto na cama, o sangue, mas não era mais um pesadelo. Ou então era um pesadelo com cheiro, e dor, porque quando tropeçou no tapete pôde sentir e muito a dor no pé.
Era real.
Ela não iria acordar e ficar aliviada por ter que passar mais um dia esperando por aquilo. Não, estava acontecendo. Sentou num canto do quarto e começou a rir. Rir, de alívio, de felicidade mesmo. Não havia mais o medo de matarem seu pai, ele estava morto. Não havia mais o medo de invadirem a casa, ela estava arrombada. Estava lá. Tudo tinha terminado. Por isso ela ria. Ria com tanta vontade, como já algum tempo não fazia.
Ria.


Márcia Cristina Lima
             08/08/2001

domingo, 24 de março de 2013

Solução na moda


A saudade é tanta que eu toparia te encontrar só para ter certeza que o amor morreu. Mas se ao te ver, percebesse que aquele riso frouxo que me provocavas vem à tona, o que eu faria?
O que eu faria se ao te ver meu coração louco me fizesse esquecer tudo o que me fez te abandonar e fizesse eu doidamente me aproximar demais e te tocar?
O que eu faria se ao te tocar minha pele incendiasse e eu pusesse toda a minha cautela no lixo e me jogasse no teu corpo, só para ser feliz breves momentos de novo?
Mas o que eu faria se ao levantar da cama, o teu risinho cínico me dissesse: “não me negue, você não me resiste”?
O que eu faria com os dois meses de mantras de autoafirmacão? O  que eu faria com os três meses de terapia? Seis de casa nova, cabelo novo, corpo novo? Como eu encararia o fracasso de perceber que posso mudar toda a minha vida, me tornando quase outra pessoa, mas não consigo mudar o que eu sinto por você?
Como eu encararia essa fraqueza?
Talvez olhando pelo meu prisma, você entenda o presente que eu te trouxe. Talvez se você percebesse como eu percebo a inutilidade de seguir vivendo quando sempre cairei na mesma armadilha bastando um simples sorriso teu. Talvez eu faça você entender com alguma atitude drástica esse desespero que me toma quando não consigo simplesmente mandar em mim e me sinto completa nos teus braços. 
  


Ahhh mas meu orgulho bobo precisa de uma resposta. Quem sabe teu sorriso cínico murche ao perceber que nesse lanche pós-coito, nessa reposição de energias após-recaída. Você seco, sedento, nem tenha percebido o gosto cáustico do Ades Maçã no teu copo. E quem poderá me acusar de qualquer coisa se nesse motel barato, barato como você sempre tratou meu amor, só tem isso pra beber?

fotos: internet