segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Contra Monstros

Saiu do quarto, meio sem ver por onde andava, olhos inchados, chateada. A casa estava semi-arrumada, semidestruída, semi-arrombada, tinham levado quase tudo: TV, som, livros, tinha sobrado um monte de destroços, inclusive um coração. Andou pelo corredor com marcas visíveis de briga. Nunca tinha feito isso, nunca tinha escancarado tanta raiva de uma vez só. Mas dessa vez não teve chance, o Monstro dentro dela gritou tão alto que a ensurdeceu. Teria chance um dia contra ele? Lutaria um dia contra o Monstro que a tinham feito conhecer ainda menina? Foram anos fazendo o Monstro se calar, foram anos sendo racional, cordata, certinha.
A fúria tinha ultrapasso os limites do bom senso e ao chegar à cozinha pensou seriamente em tratamento médico. Conseguiria novamente manter o Monstros sob controle? Lagrimou mais uma vez,  não pelo que tinha feito, mas pelo que tinha deixado de fazer. Pela primeira vez tinha deixado de ouvir, mas sabia o que viria, conhecia todas as desculpas, as quais não suportaria ouvir. Sempre evitara mesmo ouvir desculpas. Comprimido, água. Precisava de alguma coisa para aplacar aquela raiva em forma de bili que a fazia querer por mais uma vez os bofes para fora.
Abriu a porta do quintal, não queria olhar para o que tinha feito da própria vida. Não queria se encarar de frente porque era um rosto que ela tinha visto a infância inteira. O rosto que se prometera não ter. A mãe quebrando tudo em cima do pai.
Pensou em mudança de casa, de vida, mudança de tudo. Fechou os olhos, mais lágrimas, não conseguia contê-las assim como não conseguira conter o Monstro. Seria ela assim também?
Fechou os olhos, o sorriso dele brilhou a sua frente, as brincadeiras, os carinhos, a maneira de colocar a barba sempre abaixo da orelha dela, as lágrimas aumentaram. Um suspiro fundo, uma vontade de morrer. Percebeu que o remédio começava a fazer efeito.
Saiu em direção à cama, não pretendia levantar de lá e encarar o mundo tão cedo. Arrastando os pés, sem coragem, sem vida. Tão diferente dela mesma. Esbarrou em alguma coisa. Levantou a vista, era ele, olhos vermelhos, chateado.
- não pense que você vai fazer esse showzinho, abrir a porta e me mandar embora... 
Ela estremeceu, calada, ele era maior, bem maior, que ela. Nunca tinham brigado, a vida tinha sido discordâncias esquecidas em piadas, ou conversas sérias. Se ele fosse brigar, o Monstro voltaria? Ela respirou fundo.
- o que você quer mais? Já levou tudo!!
- Não levei, não.
- O que quer tenha sobrado mando pra você depois. Não quero mais conversar – o medo do Monstro voltar, ou mesmo vomitá-lo no corredor era maior. O efeito do remédio foi-se.
- O que quero você não vai mandar, na verdade, é desnecessário mandar qualquer coisa. – ele não brigava mais, tentava apaziguar quando tudo dentro dela parecia feito de ácido, uma bomba prestes a explodir.
Ela respirou fundo, ele percebeu:
- você está se sentindo mal? – como ele podia meu Deus? Como ele podia todo aquele carinho?
- não, você já pode ir...
- A casa ta uma bagunça.
- Não to com ânimo para na.. o que você quer aqui? Vai embora, vai. Vai fazer o que quer que você faça quando não está aqui, quando não atende o celular... quando eu te procuro e nunca te acho – era o Monstro falando?
- Eu não entendo porque isso agora, me fala, o que eu fiz? A bateria do celular acabou, droga, todas as baterias acabam um dia, você sabia disso? – exasperação, chateação – Ainda num entendi tudo isso – ele mostrou apontou ao redor – Tudo isso, todo escândalo por causa de uma bateria?
- Onde você tava, me fala? – o Monstro tomando às rédeas ela percebeu no tom de voz -  A sua bateria não acabou, o celular ligou quando você chegou. Eu liguei. Por que você precisou desligar a merda do celular?
- Ligou mesmo tem certeza?  Agora num tem como saber, você viu o que fez com o celular? – Viu, o Monstro o tinha transformado em pedaços.
- Por que você voltou aqui? Por quê? – O Monstro novamente tomando conta de todos os sentidos. Ele a agarrou. Segurou os braços, tomou a boca com a dele. Calou os gritos. Ela chegou a rever as cenas da infância. Estremeceu, seria diferente, não seria como a mãe, não arrancaria sangue da boca dele. Beijou também. Agarrou também. Pendurou-se no pescoço dele, como se assim pudesse sair daquelas ondas furiosas em que o Monstro a engolfava.
Alguma cosia naquela atitude o desesperou. O amor deles era quase sempre lento, poucas vezes tanto desespero, tanta fome era demonstrada em beijos. Os toques foram violentos, uma luta de dominação, bocas, arranhões, roupas rasgadas, penetração na escada, escoriações em joelhos. Cotovelos na parede.
Sangue vermelho de peles rasgadas sendo espalhado em partes da casa, nunca antes imaginados, um amor de bicho, até então desconhecido num casal de tanto tempo.
A pele dela reluzia, na tentativa do corpo de manter a temperatura, a fina camada de suor brilhava na barriga onde ele agora descansava a cabeça. Satisfeitos, mas assustados, os dois.
- Ainda to sem entender nada.
- Eu também – ela disse, agora já mais quase parecida com ela mesma, já quase sem Monstro dentro do corpo. 
 Ele beijou a barriga, subiu para o rosto, beijou a boca, tocou o rosto dela com a barba do jeito que ela adorava. – Me promete que não mente pra mim – ela deixou escapar, mas dessa vez não era o Monstro, era ela mesma.
- Eu não menti para você, não dessa vez.
- Então, das outras vezes? – ela levantou a sobrancelha
- Nada grave, esquecimentos bobos. Nunca para te magoar.  
- Não mente pra mim, ou você sabe não sabe mentir, ou eu sou sensível demais – os olhos marejados outra novidade para ele até então.
- Vou fazer o máximo, prometo. Ele voltou a beijar, o rosto, a boca, passou a barba no seio – ela respirou fundo – ele abocanhou o mamilo. Qual a chance da gente repetir isso de novo? Sem parte de quebrar metade da casa?
Ela riu
- Talvez se você mentir pra mim de novo o Monstro venha.
- O Monstro?
- É, mamãe às vezes fazia essas coisas com o meu pai, quebrava metade da casa, e faziam as pazes estranhamente. Eu costumava dizer que o Monstro tomava conta dela. Acho que sou mais parecida com ela do que eu gostaria. – disse triste, resoluta.
- Quem sabe a gente não mantém o Monstro ocupado com outra coisa e ele mantenha a casa inteira? E riu, uma gargalhada que ela não entendeu, mas depois acompanhou.
- Quem sabe? Aproveitou para montar nele e recomeçar a sessão de amor, com unhas e dentes. Se era para amar feito Monstro, não dava era para sair sem marcas. 

sábado, 16 de junho de 2012

Reposta

Ele viu em seu rosto o receio, mas sabia que ela o amava. Ele percebeu seu tremor e a força com que segurava a bolsa em frente ao corpo, mas tinha certeza que ela cederia. Mesmo que negasse, ela não tinha forças para resistir a ele. Ela não tinha escapatória, cederia. E já há muito tempo esperava por isso. Esperava que ela decidisse, que ela permitisse. Fora a mais difícil das conquistas. Quanto tempo? Um ano e quanto? Nossa, muito mais tempo do que a última que era tão carente que em menos de dois meses deixara tudo em suas mãos. Ela não. Ela era especial. Bonita, inteligente, sagaz, mas tinha cometido um erro, apaixonara-se por ele. Agora, apenas o golpe final. Tudo estava armado, mais uns minutos e ela entregaria, a chave do carro, as jóias, o dinheiro, o coração, a vida. Ela entregaria tudo que ele pedisse e ainda ofereceria mais. Ele estava louco, louco para entrar em ação de novo. Nunca demorara tanto numa conquista, mas esta era uma coroa diferente. Tinha tudo que ele gostava, inclusive beleza. Se cuidava, cheirava bem, se vestia bem. Tinha grana, muita grana. Carro do ano, jóias, muitas e valiosas, que agora estavam no cofre do hotel. Ele a tinha convencido de que precisava mostra-las naquela festa em especial. O bom é que agora ninguém acreditaria que ele a matara, conseguira convencer a todos que a amava, inclusive o imbecil do filho dela. Acreditariam em assalto, afinal para todos os efeitos ele nem estava ali naquele momento. Tinha voltado ao Brasil, e, quando chegasse procurando por ela no hotel, a encontraria morta, vítima de um assaltante nas perigosas ruas centrais de Nova York. Tudo perfeito, o plano perfeito. Em seguida, ouviram-se tiros. Ele olhou a própria arma, assustado. Não tinha feito nenhum movimento ainda, como poderia? Sentiu alguma coisa quente escorrer pelo abdômen. Olhou para a mão dela na bolsa, percebeu que ela segurava algo diferente antes. Caiu ainda meio confuso e pode ouvir - Eu nunca confiei em você Depois, só escuridão.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

No compasso


Deitou a cabeça cansada no peito musculoso dele. Apesar de todo o esgotamento e todo o gozo, sorriu preocupada. Não era muito dada a crenças absolutas em finais felizes ou contos de fadas, mas o relacionamento que começara como um negócio caminhava para um desfecho romântico. Era possível? Sua racionalidade dizia que não.
Invariavelmente mulheres como ela que tinham situação financeira estável, que tinham bens, que tinham... tinham... quase nunca conquistavam amor, quase nunca achavam sua alma gêmea e ela já tinha se acostumado a crueza da vida, de lhe roubar aquilo que ela mais gostaria de ter, para de uma hora para outra passar a crer firmemente nessa possibilidade.
Então quando cansara de querer dançar e não ter par, fora atrás de um, do único jeito que sabia fazer as coisas. Comprou um par para dançar. Quando o vira pela primeira vez fizera a avaliação: altura adequada, ombros, braços, músculos não muito definidos. Não que fosse importante, ela não queria exibi-lo, queria exibir-se. Mas era também bonito e parecia bem tratado.
O acordo saíra na primeira aula que fizeram juntos, não parecia realmente uma coisa de outro mundo. Ela ia busca-lo, nos dias que tivessem festas que ela gostaria de ir, o levaria de volta e ele receberia diária, além de não pagar nada que quisesse consumir.
Até que ele começara a ligar, começara a convida-la para sair sem o compromisso da dança, sem o pagamento, sem... nada além da companhia dela e da conversa. No começo, achou a atitude legal da parte dele, que fossem amigos além de pares de dança.
Um dia, muito mansamente ele começara a se impor, a elogiar, a desejar, a dizer coisas que a deixavam mexida, nervosa. Um beijo roubado, dentro do carro, e pronto, ela nunca mais seria a mesma até prova-lo por completo.
E nesse meio tempo dançar ganhara um novo significado, a fluidez dos passos, os bate-coxas sensuais, e o corpo dela completamente entregue aos floreios que ele fazia no salão. Fora num fim de dança que ele fizera a proposta e ela achou que nenhum passo de tango teria toda aquela dramaticidade, nervosismo ou sentido.
Foi a primeira vez que ficou nua na frente dele, e o olhar que recebeu em troca dessa coragem, foi completamente atordoante, o arrepio de aceitação de se sentir gostada... querida... gostosa... a provocara ao extremo. O coração calculista perdera as batidas.
Ele nem era um homem, era ainda um garoto acostumado a sair com menininhas, acostumado a corpos jovens e ela já estava acima da idade da pele firme, embora se cuidasse.
A maneira delicada e carinhosa como alcançava os lugares no corpo dela, lhe tiravam o folego. A principio, um recuo, uma timidez quase como a primeira vez. Depois, a fome a consumiu e ao mesmo tempo era diferente quase romance, quase como uma relação intensa de gostar profundo embora nenhuma palavra sobre sentimentos tivesse sido dita.
Ele conseguira acordar a libido que a muito dormia. Um toque leve no pescoço, um beijo molhado na nuca, os corpos juntos na cama e o vigor da juventude que a inebriava, era quase vinho em seu sangue, uma mistura de calor e entorpecimento. Sentia a pele pulsar e se sentia viva. Era isso que agora a preocupava. Como uma droga, ele começara a se infiltrar, e não era para ser assim, era para ser um negócio.
Era pra conseguir livrar-se dele quando quisesse, mas via-se a ligar, via-se a inseri-lo em sua vida. Queria-o sem definir exatamente como conseguiria deixa-lo ficar. Respirou fundo, acariciou o peito sob o rosto, ouviu um suspiro.
- mais? – era uma mistura de riso e convite.
- como se eu aguentasse... – mais desafio
- não aguenta, não? Vamos fazer um teste? – felicidade era isso, a disputa saudável de quem tinha, dava, queria mais prazer.
Adorou a mão que se arrastava devagar pelas coxas, subindo e marcando virilhas, barriga, cintura, e parando abaixo do seio nu. – acho que você quer mais – ele disse olhando para o bico do seio eriçado, desceu a cabeça pôs na boca a parte do corpo que pedia carinho, carícias. Ela respirou fundo, agarrava cabelos, cabeça. Arranhava.
- assim o outro vai ficar com ciúmes – ela ainda conseguiu brincar, ele parou a olhou nos olhos, meio irritado, meio enciumado. Ciúmes era bom sinal, não?
- que outro? – a pergunta feroz a fez rir mais ainda
- o outro seio – respondeu rindo
Ele sorriu e parou com as carícias
- o que foi? – ficou tensa.
- não gosto disso, não gosto de saber que sou apenas o rapaz que você paga pra sair com você. Não sou assim... – ele bufou e sentou na cama.
Talvez fosse a hora de conversar sério, talvez os dois estivessem se torturando afinal.
- você sabe que não é assim... que pode ter começado, mas agora, as coisas estão diferentes.
- quão diferentes, me diz?
Ela estava sendo pressionada, era isso, finalmente alguém tinha coragem de questiona-la sobre seus sentimentos. O que fazer, fugir como sempre fizera ou ter coragem de assumir que também sentia alguma coisa por aquele menino mais de dez anos mais novo e que ainda buscava um lugar no mundo?
- eu gosto de você é isso que você quer ouvir?
- eu não gosto de você - ele disse de uma única vez, ela quase sufocou – eu sou louco, apaixonado, você... você... ele também perdeu a fala.
Ela sorriu – não vejo problema nisso, ela o abraçou e o trouxe para a cama, continuaram a demonstrar sentimentos da forma mais eficaz.
***
Ela levantou, sorriu, era certo, era errado, o que estava fazendo afinal de contas? Um telefone começou a tocar em algum lugar do quarto. Ele ainda dormia profundamente. Atendeu.
- Você ainda está com a velha? – uma vez de mulher estridente e mandona se fez ouvir do outro lado. Ela olhou o telefone, era o dele. Desligou na mesma hora era um aviso. Estava ciente.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

#ContosVermelhos é prêmio do #maismaistwitterbelem


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Mas não esqueça isso é apenas uma brincadeira :)