segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Vício

Sem desculpas, só contos


Vício

- Oi ?
Por um minuto não soube o que fazer. Responder? Sair correndo? Sumir? Ou afundar-se no chão? As vontades invadiram sua mente covarde e seu corpo traiçoeiro não reagiu de imediato a nenhuma idéia.
- Oi – a resposta não trazia a surpresa esperada. Não demonstrava a insegurança ou a alegria por encontrá-lo, ou melhor, por ser descoberta.
- Você está aí, há quanto tempo? – ele tinha todo o direito de perguntar. Era seu bar favorito e ela sabia disso.
- Não é o que você está pensando! – sentiu-se na obrigação de defender-se imediatamente.
- Então, o que é? – Não havia confiança na voz dele, apenas uma sobrancelha levantada que indicava além do questionamento a clara certeza de estar sendo contrariado.
- Cheguei com uns amigos e...
- Onde estão eles? – interrompeu
- Pára de me interrogar. Eu não vim atrás de você! – quase gritou, raiva, frustração, orgulho. Cada sentimento brigando com mais força dentro dela para se sobressair. – Não é o que você está pensando – a voz sem querer ia ficando mais alta. – Por que eu viria atrás de você? Não temos mais nada. Só saí pra me divertir um pouco, ou o bar é exclusivo? Os pobres mortais não podem pisar aqui?
- Onde estão os seus amigos? – o tom de voz deixando bem claro que ele não ia entrar no mérito da questão sobre ela poder ou não estar naquele bar.
- Já estavam de saída. Eu vim ao banheiro – ela sabia que ele sentia a mentira da última frase.
- O banheiro das mulheres é do outro lado – parecia querer provar que ela estava fazendo o que dizia que não estava.
- Eu sei - respondeu rápido - Agora, eu sei, se corrigiu, você nunca me trouxe aqui, eu não conhecia o bar - era uma acusação e uma constatação juntas.
- você sabe o motivo – o que mais a irritava era o fato dela estar se sentindo culpada e ele posando de correto no meio do bar.
- Sei? Ok. – levantou as mãos espalmadas – não precisamos discutir isso, nunca mais precisaremos discutir mais nada mesmo. Não tem mais importância.
- Não? – a maldita cínica e sarcástica sobrancelha levantada a inflamava de raiva – Seus amigos não a estão esperando? A maneira como ele falava também a deixava furiosa, era quase um pai, pegando a filha em arte flagrante.
Quis ser indiferente - Por isso mesmo não posso conversar agora – saiu quase correndo em direção ao banheiro feminino. Queria chorar. Morrer. Que idiotice tinha sido aquela para entrar e procurá-lo? O relacionamento tinha acabado. Não tinha mais nada haver com ele. Embora uma vontade masoquista a tivesse feito aceitar o convite dos colegas de trabalho para uma esticadinha no fim de noite. Não esperava ir parar ali, mas já que estava lá, não custava nada, tentar vê-lo. Só isso, olhar para ele. Morria de saudades. Sabia de sua culpa e responsabilidade pelo fim do relacionamento. Mas o coração doía tanto. Os olhos ficaram inundados. Tentou se conter. Precisava sair inteira do banheiro, como se nada tivesse acontecido, entrar num taxi e ir pra casa, garantira aos amigos que ficaria bem, apenas queria dar sua última espiadinha nele para poder dormir em paz. Se é que algum dia conseguiria encontrar paz novamente.
- Seus amigos já foram – ouviu imediatamente ao sair do banheiro – Eu levo você pra casa, as palavras ditas como se ele estivesse fazendo um extremo sacrifício, não sei por que você insiste em sair com esse pessoal que te deixa sozinha – e lá vinha o mesmo tom de recriminação que ele usara quase sempre.
Nunca tinha aprovado os amigos dela. Nunca tinha aprovado os lugares aonde ela ia. Principalmente se ele não estava junto. Mas ela era proibida de freqüentar os lugares aonde ele ia.
- Não são lugares para moças, ele quase sempre repetia, como se ainda vivessem na idade média.
- Já sou uma mulher. Posso ir aonde bem entender...
- Não vamos discutir isso de novo. – não, não iam discutir isso de novo, nunca mais discutiriam nada referente aos lugares que freqüentavam afinal não tinham mais nada em comum, nem cobranças, nem afinidades.
- Claro que não, minha vida e os lugares que vou não são da sua conta. São?
- Não – seco, frio,
- Ótimo. Não preciso que você me leve para casa. Eu vim sozinha e vou voltar sozinha.
- Não. Eu levo você. – insuportavelmente mandão, ela tinha esquecido como odiava aquele tom autoritário. A raiva ia fluindo cada vez mais rápido pelo sangue.
- Não acredito! Vai abandonar seus amigos para me levar em casa? Quanta deferência... também sabia ser sarcástica
- Não comece. Não vou brigar. Eu vou levar você e pronto.
- Ah! Quantos anos você acha que eu tenho? Quinze?
- Eu sei exatamente quantos anos você tem. Mas já bebeu o suficiente.
Ela riu alto – sim, você não gosta que eu beba. Pois para o seu governo, eu bebo o quanto eu quiser.
- Cala a boca. Você está fazendo escândalo – ela parecia realmente irritado, o que a deixou ainda mais irada
- Escândalo? Você ainda num viu... – a mão grande e forte dele tapou a boca, o braço a agarrou pela cintura. Ele carregou a mulher que se debatia pelo bar e entrou com ela no primeiro táxi que viu.
- Você passou de todos os limites – ele a agarrou e beijou com toda a fúria que tentava conter, depois ânsia, fome e saudades superaram a raiva e o rancor – e antes que você fale qualquer coisa. Realmente não me interessa o que você veio fazer aqui. Não me interessa com quem você veio. Muito menos o quanto você bebeu... Eu tava louco de saudade.
Ela correspondeu ao beijo, jogou-se em seu peito – Eu não bebi – assumiu ainda zonza.
- Percebi... – ele continuava com a língua próximo a boca dela
- Mas eu não vim... juro.. de verdade
- Já disse que não me interessa. Vamos para casa. Eu preciso de você
- Casa?
- Sim, a minha. De onde você nunca devia ter saído...
- mas...
- Não quer ir? Os olhos dele ficaram inseguros, quase angustiados
- Mas e sexta que vem?
Ele sorriu – Temos sete dias até a próxima briga. Quero te beijar bastante e me lembrar de todos os motivos pelos quais eu fiquei feliz de você ter ido embora.
- Feliz, é? Bateu nele de brincadeira
- Por dois minutos sim. O resto do tempo eu só queria você.

Marcia Lima
29/05/08