terça-feira, 7 de setembro de 2010

As atitudes

Por vezes, na vida, precisamos tomar certas atitudes que nunca imaginamos ser capazes.
Mas pelo bem é preciso!
Pelo nosso bem e pelo bem dos outros!

Uma vez, há algum tempo eu escrevi esse conto, pois precisava me dizer que atitudes mesmo as mais absurdas são necessárias.

As atitudes

Por noites e noites durante toda a adolescência o sonho se repetira. Nem sabia dizer ao certo se era sonho ou pesadelo. Quando começava tinha uma sensação boa. Um sentimento bom de proteção e carinho. De cuidado.
O sonho era sempre com ela bem garotinha deitada num quarto infantil e escuro, quando ele chegava. Ela nunca sabia por onde ele entrava, às vezes, parecia se materializar na luz da lua que entrava pela janela.
Ele chegava devagar, aproximava-se da cama e sentava-se ao lado dela. O rosto sempre no escuro, a única luz que entrava ficava as suas costas. Ela não sabia quem era. Mas podia sentir que era alguém com muito carinho porque vinha até a cama e tocava-lhe carinhosamente os cabelos.
No início sentia-se bem, acalentada, feliz, amada. Era a melhor de todas as sensações. Alguém a velar-lhe o sono. Começava adormecer, dentro do sonho, e a sensação parecia mudar. Não conseguia definir se era porque a mão dele já estava acariciando o corpo perto do bumbum, só sentia que aos poucos a confiança e o carinho que sentia naquelas mãos que tocavam carinhosamente ia mudando.
O coração começava a acelerar, o sonho tomava ares de pesadelo. Daqueles em que não se consegue gritar, nem se mover. Que o corpo todo é tomado de um pavor tão grande que parece estátua sem vida, sem reação.
Sentia as pernas tremerem e mãos leves e acariciantes descendo por elas. Sentia nojo e asco quando elas voltavam perna acima, agora pelo lado de dentro. Tinha vontade de se encolher, de gritar, mas não conseguia, não conseguia acordar.
Sabia que aquela tremedeira toda anunciava perigo e o rosto que não podia visualizar, agora não era mais carinhoso, mas que se transformava numa mascara nojenta de monstro. Não podia vê-lo, nunca conseguiu. Mas sabia, sabia que expressão ele deveria ter.
O coração agora só faltava sair peito a fora. O corpo inteiro suava de esforço. Esforço para gritar, esforço para se mover, mas era impossível.
O ápice do nojo ainda não tinha chegado. Ele enfiava os dedos, sem cuidado. Às vezes arranhando, machucando e ficavam lá brincando por um tempo. Enquanto uma mistura de nojo e prazer ia fazendo o corpo dela tremer ainda mais.
Tremia tudo: as narinas, as pernas, o peito. Mas o pior, ela sabia, ainda estava para começar. Ele faria com que ela tocasse uma parte do corpo dele que estava muito dura. Ele gemeria e diria coisas nojentas, mas essa não era ainda a pior parte do sonho, como um filme de terror já conhecido e pela metade, sabia que as piores sensações ainda estavam por vir. Ele queria que ela dissesse que gostava e murmurava coisas desconexas. Como se não bastasse violentar apenas o corpo, era preciso violentar também o espírito, a mente.
Por fim, ele tiraria a mão de dentro dela, a punha na boca, diria que ela tinha um gosto bom e arreganharia suas pequenas pernas para deitar-se ali no meio delas. Colocar lá a parte dura do corpo dele.
Se jogava pesado e fedorento em cima dela, suando. Ela, quieta, com dor, mas sem ação. Refém do medo, dentro de um sonho que se repetia sempre do mesmo jeito e sempre parecia nunca acabar. Ainda era obrigada a ouvir: “Se você gritar, ou contar para alguém, eu digo para sua mãe que você gosta. Conto tudo o que acontece entre nós”.
O medo virara terror e escorria silencioso pela face.
O mesmo sonho-pesadelo se repetira durante anos e anos em quase toda a adolescência. O mesmo, sem nenhuma nuance diferente, o carinho, a violação, as palavras, o odor nojento, o terror de dormir e sonhar. Acordava sempre gritando, corria para o banheiro numa tentativa de lavar-se de tudo aquilo. A mãe nunca soubera o que acontecia. As palavras ecoando em sua cabeça: “se sua mãe souber”, “se sua mãe souber”.
Mas quando o padrasto morreu, perto dela completar dez anos, deu graças a Deus.
Não houve nada mais providencial do que aquela queda do barbeador elétrico na banheira.
Esse era um outro sonho que a atormentava algumas vezes. Aquele homem peludo nu, com um sorriso nojento convidando-a para entrar na banheira. Ela saindo correndo do banheiro, ouvindo os gritos dele. Mas esse sonho só a acometia às vezes quando alguma coisa a fazia lembrar “de como a vida dela era melhor com o padrasto vivo”.
A mãe ficou muito triste com a morte dele.
Os pesadelos de toda a adolescência haviam parado já há algum tempo talvez pelo excesso de remédios para dormir que vinha tomando escondido, ou talvez pelo excesso de atividades que vinha se impondo. Mas agora, agora eles estavam de volta, de repente. Não sabia dizer se era porque a mãe estava de namorado novo. Ou se era porque o menino mais bonitinho da rua a tinha convidado para conversar naquele canto escuro.
Não, de escuridão ela fugia, não gostava. Dormia a noite toda com o abajur aceso.
Agora a mãe e o namorado. Trancados no quarto. Igual quando ela conhecera o padrasto.
Os pesadelos de volta. Sabia que teria quer fazer alguma coisa com eles.
Será que ela teria que deixar cair novamente o barbeador na banheira?

Márcia Lima
Maio de 2001