quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Quando o sonho vira realidade

O jornal de hoje me fez lembrar desse conto perdido há quase dez anos entre os meus pertences.
É engraçado ver um conto acontecendo.
Será que os outros também correm certo risco.
Tomara, tenho muitos muito felizes.
Aproveitem


A aparição


Era uma tarde calma e quente de verão. Numa dessas tardes que de tão quente o tempo parece parado. Quando parece que nada de interessante pode acontecer. Como se o mundo inteiro estivesse em suspenso, esperando até que o sol abrandasse e nos deixasse com mais vontade de viver. Era numa tarde assim em que eu assistia televisão e me abanava quando ouvi os gritos e as gargalhadas vindas da rua.
Pensei, “quem seria tão estúpido a ponto de contrariar o tempo?”
- Vem aqui, Sú – gritou alguém de lá.
Mas ele sabia que nem era preciso me chamar, minha curiosidade não me deixaria em casa esperando o tempo passar enquanto pessoas riam lá fora. Levantei ainda meio contrariada porque o calor era demais e estava eu bem feliz e fresca na frente do ventilador, mesmo assim a curiosidade não pode esperar e saí para ver o quê causava tanta confusão.
Quando o vi, não acreditei. Tudo bem que estávamos na Amazônia e que a maioria das pessoas do Sul e Sudeste do Brasil acreditam que aqui os jacarés andam na rua. Mas a coisa é tão fantasia que até nós mesmos nos assustávamos de ver um e, ainda mais, tomando sol tranqüilamente no meio da rua, como se fosse o dono do pedaço, o abusado.
A gritaria, os risos e o susto tomavam a vizinhança, e todo mundo chamava todo mundo para vir ver o bicho, em pouco tempo esquecemos o calor em nome da nova atração. O bicho não devia ter mais que 50 cm de comprimento e não deveria chegar a 4 quilos. Mas foi a sensação de uma tarde quente, em que nem disposição tínhamos para uma brincadeira mais comum.
Com o espírito prático, meu tio o amarrou para que não fugisse, nem machucasse ninguém (embora eu duvidasse muito que o bichinho fosse capaz de alguma maldade, era tão pequeno e parecia tão filhotinho). Ficamos a cogitar o que fazer com aquele animal que de estimação não podia virar. Nunca ouvi falar em jacaré de estimação.
Uns diziam, “vamos comer”, mas só de pensar no trabalho de tratar e tirar a pele de um bicho tão pequeno já nos enchia de preguiça. Sem contar o nojo que algumas pessoas claramente demonstravam. “Vamos chamar alguém”, sugeriu outro. Pensaram em tv e jornal. Mas desistiram.
Até que alguém chegou a uma conclusão: Os bombeiros. Idéia que todos acataram. Na verdade, não entendi bem por que chamar os homens do fogo, se a situação nem era de emergência.
Mais ou menos no fim da tarde quando o sol já caía e a brincadeira já tinha perdido metade da graça, para os adultos, o caminhão vermelho dos bombeiros chegou. Seis grandes homens, pelo que eu pude ver, desceram. O mais bonito de todos (eu não podia deixar de reparar, né?) desceu por último, parecia ser quem comandava porque chegou perguntando pelo animal.
- Eu sou o chefe do resgate. Onde está? - ele disse.
Embora eu ficasse me perguntando quem ele teria vindo resgatar. E a única resposta que achei foi: “Bem que poderia ser a mim. Adoraria ser resgatada, por ele”, falei para meus próprios botões.
Mas minha atenção voltou-se novamente para o bichinho que eles tinham vindo buscar. O quê homens tão grandes fariam com um bichinho tão indefeso e tão pequeno?
Foi quando ele nos surpreendeu com uma pergunta que deixou todos em alerta.
- Tem água aí a atrás?
Ora moramos num bairro, que foi construído em cima de um igarapé. Água era o que não faltava. Aí ele nos amedrontou. Fez crianças pensarem em Aligátor, o filme e os adultos ficarem realmente preocupados.
- Esse animal é filhote, ele deve ter pai e mãe, irmãos.
Pensei que se o filhote tinha 50 cm centímetros, quanto deveria medir o pai daquela criatura? E imagens dos filmes de terror com jacarés gigantes e homens grandes resgatando mocinhas indefesas, como eu, foram as que não me deixaram dormir naquela noite. Mas nem por isso deixei de sonhar. Afinal, o chefe do resgate valia ou não o risco?

Márcia Cristina Lima
21/05/2001.