quinta-feira, 15 de julho de 2010

Um conto com cara de realidade

Muitas coisas são difíceis de viver, acredito que por ser mimada, a frustração é a pior delas. E pra lidar direito com a impossibilidade um conto possível.

A enganação

Fazer papel de forte era com ela mesma, enganar, mentir, fingir seus próprios sentimentos. Engolir rancores era sua especialidade, remoer pequenas imperfeições alheias e próprias seu passa tempo favorito, sua consumição.

Até encontrá-lo. Fora numa época estranha, uma época em desejou ardentemente amar alguém. Ele apareceu. Cortesia, cuidado, carinho, elogios?
“Todos não agem assim?” Um sorriso sem graça e a percepção de que ele começara algo que ela finalmente não era capaz de controlar. Mas definitivamente era uma época estranha, porque mesmo com a vontade de se entregar, o medo ainda restava. Achou que se mostrava toda. Abria todos os baús, contava todos os segredos, do que ele tinha proposto, ela estava lá, achando que se entregava.
Mas, como na música do Chico do Buarque, embora tivesse começado algo, ele não tinha aberto as gavetas, mostrado armários, embora compartilhassem muito, idéias e inteligência, sentimentos ainda estavam guardados, esquecidos. Sensações não eram postas à tona.
Mergulharam juntos numa mentira de rancores engolidos. De pequenas palavras e gestos que machucavam, mas passavam como diversão.
Enganando-se, protegendo-se, arrebentando-se.
Numa conversa franca em que nenhum dos dois se mostrou, o relacionamento acabou. Palavras, idéias, racionalidade, não foram suficientes para se entenderem. Faltou a verdade. Porque só a verdade é capaz de libertar. Ela continuou tentando ser a forte, porque por mais lágrimas que tivesse derramado, ela não tinha se dado a chance de ser verdadeira.
Escondeu-se, escondeu as incertezas, escondeu as raivas, tentou não invadir, para manter a liberdade dos dois.
Ele não entendeu. Porque por mais inteligente que fosse é sempre difícil compreender quando se ama. A libertou, porque achou que ela assim o queria.
Hoje, andam pela vida, tentando se achar, sem saber onde o erro começou ou quem foi o culpado. Querendo começar, com medo de errar de novo!!

Marcia Lima

sábado, 10 de julho de 2010

Quando não há esperança

Sempre faço isso. Quando tudo na vida me doí, eu sonho.
Assim mantenho-me no caminho.

"A fada-criança vive cada dia mais feliz.
O corpo que a comporta é que as vezes se perde e sofre!"

Sonhos são como Deuses se vc não acredita nele. Eles Deixam de existir.

Pra viver, eu tenho que acreditar sempre...

Um conto de idas e vindas pelo caminho.

Encontros e desencontros


- Greg – um grito quase infantil ecoou pelo quarteirão

O rapaz que ia a frente respirou fundo, todo o esforço que tinha feito para não ser visto fora em vão. Parecia que ela possuía um sexto sentido em relação a ele. “Tinha faro”, como gostava de pensar, ou então vivia para atormentá-lo.
- Oi, Anna! – respondeu sem muito prazer – O que faz até esta hora no colégio? – perguntou referindo-se às três horas que já haviam se passado desde que o sinal que anunciava a saída havia tocado.
- Eu estava tão ocupada que nem vi as horas passarem. A equipe de artes estava montando um Mural tão legal, que não consegui resistir e resolvi ajudá-los. Vai ser o máximo a apresentação deles no sábado. Você vai? - perguntou com um sorriso.
- Pra onde? – quis saber, sem se interessar pelo que ela estava dizendo. Afinal ela acabaria pedindo para ir junto e realmente não sentia a mínima vontade de bancar a babá de ninguém. Já estava cansado de ficar pra cima e pra baixo com uma garotinha. Queria era estar com os amigos para azarar um pouco, o que a companhia dela impedia.
- Ora. No Encontro das Comunidades Católicas, será a abertura dos Jogos Católicos. Esqueceu?
- Sei – respondeu sem muito interesse - Um dia inteiro de palestras. Não sei se vou agüentar – completou.
- Que é isso! – riu e bateu de leve nos ombros dele - Se não fores é bem capaz do treinador te tirar do time de basquete. Seria uma injustiça. Treinaste tanto.
Pelo menos quanto a isso ela tinha razão. Se existia uma coisa que as freiras não perdoavam eram os atletas que não davam atenção aos artistas, oradores e às celebrações litúrgicas do colégio.
- Se não tem outro jeito. Vou, né?
Ela sorriu. Não conseguia lembrar a quanto tempo se conheciam e nem quando a amizade que sentia por ele, quando criança, tinha se transformado nesse sentimento estranho, que mistura posse e carinho ao mesmo tempo.
Talvez tenha sido no dia em que ele voltou de viagem, depois de quatro anos morando com o pai em Porto Alegre. Ele tinha voltado para visitar a família da mãe, onde foi obrigado a ficar por causa do falecimento repentino do pai, num acidente de carro. Foi um período difícil para todos na pequena vila de casas do subúrbio. Afinal cada um tinha uma maneira de lidar com a morte de um homem que praticamente roubara o filho de uma das criaturas mais queridas daquele lugar. Poucos respeitavam, embora soubessem que Gregório sentira muito.
Assim foi o retorno dele! Como “irmã de plantão”, termo usado pelo próprio Gregório durante toda a infância deles, cabia a Anna consolar e tentar fazê-lo se readaptar à nova terra, à nova família e às mudanças que haviam ocorrido por aqueles lados enquanto ele estava longe.
A proximidade, e porque não a beleza e a fragilidade que ele demonstrara à época do acidente, fez com que ela nutrisse por ele um sentimento maior do que a amizade. Com o passar do tempo, Gregório se re-adaptara, fizera amigos, superara a tristeza e não suportava mais as atitudes quase sempre superprotetoras dela. “Principalmente, porque ela parece estar o tempo inteiro sorrindo. Nunca triste, nunca depende de ninguém. Isso me irrita”, costumava comentar com os amigos.
Eram atitudes que ela não percebia. O cansaço que ele demonstrava às vezes parecia o fantasma da tristeza que queria voltar e tomar conta dele de novo e ela prontamente tentava afastá-lo. Fazendo justamente aquilo que ele tentava evitar. Ultimamente, percebera que ela era ainda uma menina, e as novas amizades começavam a cobrar dele uma atitude de garoto normal. Namorar, sair e azarar. Mesmo porque eles percebiam o quanto as meninas cochichavam quando ele passava. Ele era o centro das atenções femininas e ficava perdendo tempo com uma menina do primário.

O Encontro já havia começado e Anna, nervosa, ainda se perguntava o que Greg faria para se livrar da suspensão, que com certeza conseguiria por estar ausente. No meio de uma das apresentações, Anna conseguiu encontrá-lo, junto com um grupo de rapazes, avaliava as meninas que passavam. Engraçado, nunca tinha pensado em Greg como um garoto como aqueles que ficavam avaliando as pessoas pela roupa, ou beleza. Mas lá estava ele, fazendo exatamente isso. Até que uma menina de cachos dourados o desafiou a alguma coisa. Durante a cena que se seguiu Anna não pôde respirar. Ele dizia coisas que a faziam rir, e num determinado momento, ele quase a beijou na boca. A cena toda foi demais para ela, sem poder agüentar a repentina onda de ciúmes que lhe contraiu o estômago, saiu. Trancou-se num dos reservados do banheiro e no meio de uma sessão de enjôos incontroláveis começou a chorar. Um barulho vindo da porta a fez se conter. Vozes diziam alguma coisa ainda difícil de entender.

- Greg me solta – a voz de uma garota ficou mais alta – Você não pode fazer isso – risinhos nervosos acompanhavam as palavras.
- Por quê? - a voz de rapaz, inconfundível, seguiu.
- Por que você tem namorada e não quero me meter em confusão – ria.
- Namorada? Não. Quem inventou isso? – jogava também o rapaz
- Ora você vive para cima e para baixo com aquela menina do primário. Na realidade, nem sei o que viu nela – risos, que foram capazes de deixar Anna ainda pior.
- Você disse bem, criança, como posso namorar uma criança? Além disso, ela é um pé no saco, vive atrás de mim e nem percebe que não tenho paciência pro seu falatório. Nem posso fazer isso – sons de beijo eram ouvidos – Nem isso – risinhos acompanhavam as palavras.
“Criança! Criança!”, nunca parara para pensar no que ele pensava dela, nunca cogitara perguntar o que ele achava. Mas ali estavam as palavras dele: “Criança, e o que é pior, uma criança pé no saco”. Uma mágoa maior do que a dor tomou conta dela e ao ouvir o estrondo de uma porta de reservado se abrindo começou a sair do banheiro, tentando não fazer barulho.
Mas numa daquelas ocasiões em que quanto mais se deseja uma coisa todo o universo parece conspirar contra. Com um baque infernal, a porta do banheiro se abriu e Irmã Maria entrou. No rosto, uma expressão de quem caça o próprio Demônio. Expressão que mudou imediatamente ao deparar com o rosto lavado em lágrimas de Anna.
- O que foi minha filha? Anna, o que você tem? Perguntou a freira enquanto olhava ao redor. Nesse momento o silêncio reinava, absoluto, no banheiro.
- Nada - pensou em dizer alguma coisa que denunciasse o casal, mas sentia-se na obrigação de defendê-lo, afinal fora assim que ele agira com ela em anos durante a infância e ele não tinha culpa se de repente cometera a burrice de se apaixonar.
- Você está chorando. Como nada? Sentes alguma dor?
- Sinto. E de repente como que para comprovar a veracidade das palavras seu estômago se contorceu. – Acho que comi alguma coisa estragada - completou segurando o abdômen – Será que a Irmã Graça já está na enfermaria?
- Não, mas vamos lá. Eu te dou alguma coisa para dor. – Disse a freira segurando a menina pelos ombros e já quase que completamente esquecida da denuncia de casais namorando no banheiro.
Como recompensa para sua mentira, Anna fora obrigada a ingerir todo o tipo de analgésico. Mas nenhum deles foi capaz de fazê-la melhorar. Vozes se repetiam em sua cabeça, principalmente, aquela que ouviu tantas vezes quando criança, a voz daquele garoto que ajudara a consolar, de quem fora amiga, para retribuir um apoio de épocas na infância.
A cabeça cheia de perguntas dividia-se entre culpá-lo e culpar-se por esse sofrimento. Fazia de tudo para não encontrá-lo. Ao mesmo tempo que ainda tinha vontade de conversar com ele, perguntar sobre tudo. Sentia-se tão sozinha e abandonada que chegou a procurar um dos amigos dele. Que com a delicadeza natural de um garoto de quinze anos informou que realmente Greg vivia se queixando do fato dela não largar do seu pé.

- Preciso falar com você! – uma voz disse atrás dela enquanto lhe segurava o braço. Por mais que o coração batesse forte e a respiração faltasse, Anna tentou a todo o custo manter a calma. Perdoar, por mais que fosse o que desejava fazer, estava fora de cogitação.
- Sobre o quê? – respondeu com um olhar sério.
- Sobre duas semanas atrás. Obrigado. Você me salvou de uma situação constrangedora. Acabariam me expulsando da escola. Muito obrigado, mesmo. Você parece meu anjo da guarda – ele disse tentando rir.
- Ok. Aquilo fica por conta das inúmeras vezes que você não deixou os meninos me baterem quando éramos crianças. É só? – Perguntou tentando livrá-lo do incomodo de tê-la por perto e tentando também se controlar pra não chorar na frente dele.
A pergunta e a vontade dela de se afastar o pegaram de surpresa, havia esperado duas semanas para se aproximar dela porque queria curtir bem a liberdade, acreditando que quando fizesse isso ela se aproveitaria para pegar no pé dele de novo. E a atitude dela o surpreendeu, no fundo, viera agradecer porque as caminhadas para casa estavam sem graças e solitárias. Sentira falta até das risadas dela.
- Não, quer dizer é ...
- Então, é só, ou não? – o rosto continuava sério, pois as lágrimas já se formavam nas pálpebras e não sabia quanto tempo mais agüentaria.
- Você não vai lanchar? Posso te pagar .... – disse ele ainda meio atordoado com aquele comportamento completamente diferente
- Não, não pode. Você não me deve nada. Você precisa ficar com as pessoas da sua idade, e eu com as crianças do primário – uma raiva incontida começava a aflorar.
- Você disse .... – se interrompeu. Lembrando que não havia pedido desculpas porque não sabia o que ela tinha ouvido ou em que momento entrara no banheiro, mas ao que parecia ela já estava lá.
- Disse o quê? Disse que você não me deve nada e nem precisa agradecer foi apenas uma retribuição por anos em que me livrou de surras na rua. Agora, por favor, eu preciso ir. As crianças, minhas amigas, me esperam.
- Não estou entendendo. Por que você está com raiva?
- Não é pra entender. Vá viver sua vida, me esqueça. Vou fazer o mesmo, não era isso que você sempre quis? Era só me dizer
- Quer me explicar...
- Não tem nada pra explicar. – Saiu

E assim foi, a história seguiu seu curso embora algumas pessoas sofram, outras vivam bem. Mas com o tempo quem sofre aprende que sofrer não é tudo. E quem acha que vive bem começa a sentir falta de alguma coisa. Assim aconteceu com eles. Nos três anos em que faziam questão de desviar os caminhos sempre que se encontravam na rua. Como moravam na mesma vila, foram obrigados a passar por situações constrangedoras como as festas de fim de ano e de São João, quando as famílias, muito próximas, acabavam freqüentando as casas um do outro e sorrisos polidos eram necessários, mas foram vivendo e se evitando até que numa dessas festas de São João:
Greg olhava a movimentação da rua e percebeu como se sentia só. Os amigos haviam viajado e os que estavam por perto estavam acompanhados. Lembrou-se de uma época em que a presença de uma menina era constante, alguém que o fazia rir, que gostava de estar com ele, que não cobrava maturidade, que gostava dele como ele era. E principalmente não fazia tantas cobranças como sua última namorada.
E a garota estava ali, na janela da casa ao lado. Sorrindo, um sorriso diferente daquele que se acostumara a ver. Vez por outra sentia falta dela, da amizade que sobreviveu a quatro anos de distância, quando ele estava viajando. Do sentimento de reencontro, da felicidade, que viu nos olhos dela, da admiração que ficou clara desde o princípio. Foi só ao pensar nisso, que percebeu o quanto fora cruel, não deveria ter dito o que disse, também deveria ter sido mais homem e continuado a conversa naquele dia na escola. Deveria ter cobrado saber o porquê de tanta raiva. Deveria, Deveria ... Agora arrependia-se do episódio que destruíra a amizade e a admiração que ela nutria por ele. Teve, mais uma vez, vontade de pedir desculpas de trazer os bons tempos de volta.
Anna estava sentada a janela do segundo andar, olhando a movimentação dos vizinhos para a arrumação da festa. Há tempos, o sofrimento havia passado, aprendera a viver mais cautelosamente, já tivera namorados, mas vivia temerosa de uma nova traição. Não que já tivesse sido traída, mas temia a falta de sinceridade, costumava sempre terminar um relacionamento, quando o rapaz começa a ganhar alguma importância na sua vida.
De repente se sentiu observada e um medo profundo tomou conta dela. Greg a observava do pátio de casa. Um aceno de cabeça a fez perceber que ele tinha visto que ela já havia percebido. Com tempo desenvolvera um sorriso que sempre dirigia a ele quando era obrigada a encontrá-lo ou falar-lhe. Um sorriso polido e desprovido de qualquer sentimento. E foi esse sorriso que ofereceu. Mas no mesmo instante se arrependeu, alguma coisa no rosto dele mudou, uma decepção ficou evidente. Quis, não soube explicar porque, mudar aquela situação, mas ainda não se sentia preparada pra ter qualquer tipo de contato com ele. As lembranças ainda a machucavam.
- Anna! Alguém chamou – Já era noite e a quadrilha da vizinhança se arrumava para dançar – Estão perguntando se queres dançar – a tia gritou da porta
- Quero! Disse rindo, todo o ano era a mesma coisa, pensou, ninguém ensaiava nada, mas sempre teimavam em querer que todos os moradores dançassem, ou pelo menos um representante de cada família.
Quando desceu as escadas, o par que tinham escolhido pra ela a esperava.
- Pensei que tinha desistido – disse Greg, olhando-a nos olhos e percebendo a centelha de desconfiança que brilhava no semblante dela.
- Quando tomo uma decisão está tomada – respondeu. Sabendo que servia pra ele também se fosse um bom entendedor não precisaria dizer mais nada.
- Ok. Vamos sair antes que pensem que desistimos. – sorria, apesar de demonstrar que entendera o recado.
O ensaio começou, isto é, os testes pra saber se os pares dariam certo e que passos dançariam pra coisa não ficar tão bagunçada assim. Durante quase todo o tempo, a mão de Anna estava suando. Sentia-se ao mesmo tempo feliz e insegura. Queria sentir nada, como vinha se vigiando para fazer sempre que tinha que estar com Greg, não prestar atenção nele, pra não se sentir imbecil, pra não se machucar.
Mas naquela noite, ele estava especialmente atencioso, tomava cuidados, que se pareciam com os que tinha com ela, quando eram crianças. Que lembrava tempos bons. Não soltava a mão, mesmo quando deveria e quando ela dizia que estava suando ele enxugava-lhe o rosto, sempre brincando, dizendo gracinhas, mas olhava-a nos olhos. A situação já a estava deixando triste. De uma certa forma, ele queria a amizade de volta e ela sabia disso.
Mas percebeu que ainda não estava livre do sentimento do início da adolescência, principalmente porque ele era bonito demais, encantador demais, enquanto estivesse com raiva, enquanto guardasse ressentimentos poderia se ver livre das tentativas do coração de se apaixonar de novo.
Finalmente a quadrilha dançou e encantou, ou melhor, divertiu, que era seu principal objetivo. Ao final, todos saiam rindo e dois ou três vizinhos comentaram sobre finalmente os dois resolverem participar da brincadeira de rua. Um outro vizinho, um pouco mais “alto” disse que formavam um belo par.
- E sempre formaram - completou um outro - desde que eram crianças. Eu lembro, o Greg defendia a menina como um verdadeiro cavalheiro, aí daquele que dissesse ou ao menos relasse o dedo nela - comentou.
Os dois se olharam, e de repente o assunto surgiu. Outros começaram a lembrar também os velhos tempos, fazendo com que os moradores mais novos imaginassem como era a vida naquela vila que já existia há pelo menos trinta anos.
O assunto pareceu ativar uma parte perdida da memória deles, que de repente começaram a lembrar histórias engavetadas há tempos. De uma hora para a outra toda a reserva dela havia sumido, e conversavam a toda, riam e brincavam. Até que alguém percebeu que eles conversavam.
- Se re-descobriram, os dois – passou brincando um amigo.
O assunto morreu e ela tentou ir embora.
- Por favor, não se afaste de mim – ele pediu.
Um medo absurdo tomou conta dela e lembranças dolorosas vieram à tona. Tentando rir, pra não quebrar o clima de fraternidade que haviam partilhado disse:
- Ok. Maninho, mas sua mana precisa ir ao banheiro.
- Tá. Mas mano não.
Ela o fitou sem entender
- Não quero ser seu irmão
- Tudo bem. Amigos?
- Também não
- Explique-se, por favor. – parte dela já querendo fugir, o coração apertado.
- Sinto saudades suas. Sei que te magoei. Queria que me perdoasse e me desse uma chance.
- Não sei do que você está falando. Ao que me consta essa história morreu há anos.
- Não. A história continua aí na sua cabeça. Te afastando de mim.
- Convenhamos você não foi o que se pode chamar de um irmão perfeito.
- Pedi desculpas.
- Não sei se posso confiar em você. Falava coisas de mim, por trás, porque nunca me disse que não queria minha companhia era melhor do que ficar dizendo coisas a meu respeito a todos que perguntavam quem eu era.
- Eu era a um adolescente, dá pra me perdoar?
Os ânimos foram ficando acirrados. E antigas raivas começaram a aflorar.
- Tudo bem a estupidez foi minha mesmo. Quem mandou me apaixonar por um moleque.
- Apaixonar? – uma surpresa genuína brilhou no olhar dele.
- Falei demais, me deixa ir.
- Não. É por isso tanta raiva. Tanto rancor. Você era apaixonada por mim?
- E daí? Fui.
- Pensei que ...
- Deixa pra lá. ok? Foi há tanto tempo. Já até passou
- Sinto a sua falta. Sabia?
- Achei que era uma criança pé no saco – uma mistura de raiva incontida e alguma felicidade começavam a perturbá-la.
- Você não vai esquecer nunca. Não é?
- Na verdade, não sei. Quero esquecer, mas volta e meia me pergunto: Será que não estou sendo demais? Será que tal pessoa quer mesmo a minha companhia? Vivo me preocupando se serei aceita, ou algo do gênero. Será que você consegue entender isso?
- Eu sei, a culpa é minha, acabei te deixando um trauma. Vamos. Eu preciso pagar pelos meus pecados. Vamos tentar de novo.
- Ok. Amigos. Passado morto. Mas agora preciso ir.
- Não sem antes me dar um beijo de bons amigos! – algo no rosto dele deveria tê-la feito desconfiar dessa repentina aceitação da amizade. Mas mesmo assim ela não viu, ou não quis ver.
- Tubo bem! – Sorriu meio sem graça. E aproximou-se mais dele para o beijo. Ele se abaixou para deixar o rosto mais próximo. Mas no momento exato a situação mudou um par de braços fortes a agarrou e bocas se encontraram.
Num misto de ira e fragilidade ela ficou imóvel por um tempo. Mas não deu pra se conter muito. O beijo começou a ser correspondido com alguma hesitação até que num determinado momento ele a afastou e disse:
- E Então? Ainda vai fugir de mim?
Num sorriso meio constrangido ela respondeu:
- Eu não estava fugindo. Só precisava sair... E ainda preciso. – o rosto nada demonstrava. Ele ainda meio confuso perguntou.
- Quer namorar comigo?
- Namorar? Não ... não sei. Eu .... – Medo de sofrer era evidente em cada uma de suas palavras.
- Vamos lá . Me de uma chance. Juro! – ele cruzou os dedos em frente à boca – Nunca mais pretendo te magoar.
Ela sorriu. Não fora sempre isso que queria? Aí estava ele jurando nunca mais magoa-la.
- Se você me der outro beijo, juro que penso seriamente sobre uma resposta positiva para sua pergunta. – disse sorrindo. Enquanto ele também acompanhava o riso.
E foi durante esse beijo que que estouraram os fogos em comemoração à noite de São João.