segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Quando a amizade me toma

Eu sei, eu sei...
Me perdi no tempo e gostaria de culpar a minha internet de casa que está uma porcaria, mas na verdade eu sou a única culpada. O aniversário meio que me tirou de órbita e tentei ficar sóbria o suficiente...
Mesmo assim faço um mea culpa a respeito deste conto. É um sonho culpa do Caetano...

A poesia está para a prosa
Assim como o amor
está para a amizade
e quem há de negar que está lhe é superior...

Espero que gostem

Amizade

Eles eram amigos. Desses amigos para quem se conta tudo. Do problema de espinhas nas costas, da indecisão quanto a que carreira seguir, das brigas constantes com o pai, das vontades de sumir, de morrer e das paixões. E ele era cheio de paixões. Nos três anos de amizade ela já ouvira uns cem nomes de meninas que foram as paixões dele. Toda semana ele estava apaixonado por uma menina diferente.
Ela também contava tudo para ele. Das tentativas de arrumar o cabelo inquieto, do problema de pele oleosa, da vontade da mãe de lhe comprar um aparelho para os dentes. Só tinha uma coisa que ela não contava. E ele nem percebia. Ela tinha uma paixão. Uma paixão secreta. Uma paixão que doía feito ferida aberta quando ele aparecia com um novo nome de menina. Quando ele parecia ver todas as meninas do bairro, sabia as qualidades de cada uma. Mas não a via, não a enxergava como garota. Ela era a amiga. E ele era tão egoísta que nem percebia nos assuntos dela a falta de um coração pulsando, um coração que amava.
Até aquele dia.
Ela começou a contar que queria viajar, passar um ano ou dois fora. Aperfeiçoar o inglês. No fundo, ficar longe dele um pouquinho, sem saber de sua vida e de seus amores, para aliviar a própria dor. A idéia de viajar nem chegava a ser um sonho, nem uma aspiração era ainda só uma vontade. Mas mesmo assim ela começou o assunto. Dividiu com ele essa vontade que talvez a falta de grana dos pais a impedissem de concretizar.

- Quanto tempo? – ele parecia chocado
- Sei lá. Um ano ou dois – ela nem sequer prestou atenção na reação dele.
- Mas quanto tempo você ainda vai ficar? – a voz dele estava meio embargada.
- Também não sei. Posso terminar o segundo grau por lá – para ela o assunto era tão distante da realidade que continuava riscando o chão com os pés e olhando fixamente os riscos, sem perceber o estado de espírito em que ele se encontrava.
- E eu? – ele perguntou de repente
Ela sorriu e levantou a cabeça, pronta a dizer que escreveria quando viu seu rosto banhado em lágrimas.
- Você está chorando? – Em anos de amizade não era a primeira vez que o via chorar, mas ele nunca tinha demonstrado nenhum sentimento especial por ela.
- Minha melhor amiga vai embora e você quer que eu fique como? Feliz? – Ele também, além de triste, parecia impaciente.
- Mas eu não vou morrer e também volto e escrevo e sei lá pode ser que eu nem vá...
Ele a abraçou com força e ela se surpreendeu
- Você é importante para mim – ele disse, aí ela teve vontade de chorar, era tudo o que sempre quisera na vida: ser importante para ele. Começou a tremer e retribuiu o abraço.
Ficaram algum tempo abraçados, colados mesmo. A boca dele perto da orelha dela. Os corações, ambos, batendo descompassados. Aquela posição, e aquele contato perturbando-a demais. Quis se afastar. Começou uma tentativa de explicação
- Talvez eu nem vá ...
- Não diga isso, é seu sonho – ele respondeu, meio contrariado.
Ela estava tão acostumada a ser a amiga, a tranqüiliza-lo que começou, não sem um certo aperto no peito:
- Eu sei, mas você sabe como é, falta grana. Sei lá... Tem tanta coisa...
Ele ficou quieto. Quieto demais. Aquilo de estar ali, colada nele, naquela quietude sentindo o coração dele bater perto do dela. Sentindo o hálito quente dele em seu pescoço, começou a perturbá-la mais do que ela gostaria de demonstrar, tentou afastá-lo.
- Não. Espera... eu ... não, fica assim comigo. Deixa eu sentir você.
Tentando amenizar o clima ela quis brincar e tentou sorrir
- Gustavo, você está se aproveitando de mim, sou sua amiga – tentava rir.
- Namora comigo? – foi a pergunta à queima roupa que ela ouviu como resposta.
- O quê? – não podia acreditar em seus ouvidos, mesmo que a boca dele tivesse falado aquilo quase diretamente nos ouvidos dela, e fosse quase um sussurro. E mesmo que tivesse provocado aquela reviravolta dentro dela, não podia acreditar.
- É isso! – a respiração dele estava difícil parecia o princípio de ataque de asma, mas talvez não fosse.
- Ângela, minha Ângela – ele começou a dizer tentado abraça-la ainda mais. Como se fosse possível chegar bem mais perto dela – Vou ficar sem rumo se você for embora. Pensar em não ter mais você por perto me fez perceber que eu... – ele procurava as palavras. Ela tremia. E começava a lagrimar, ainda tentava racionalizar o que estava acontecendo.
- Você não pode ficar sem sua amiga – Ela simplesmente não conseguia acreditar no que ele estava querendo dizer, embora já sentisse dentro do peito um fiozinho de esperança crescendo.
- Não, não é isso. Ainda tá meio confuso para mim também, mas eu quero. Agora eu percebi o quanto eu quero
- O quê? – ela estava ansiosa.
- Te beijar, Ângela, eu quero te beijar na boca - e nem bem acabou de falar já estava com os lábios colados nos dela.


Márcia Cristina Lima
22 de Abril de 2001.