quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

De volta

Quase dez dias, desculpem...
A despeito de estar se aproximando meu aniversário, fiquei em duvida entre postar algo de amor e dor com final feliz, ou trágico... acho q minha nova idade é mais trágica q feliz. Apostei nesse fim... espero q gostem.

Educação Sentimental

Nenhum dos livros que lera na vida a tinha preparado para aquilo. Nenhuma dos dizeres populares, nenhuma das lições a tinham alertado para aquele tipo de situação. O torpor, a falta de iniciativa a assaltava naquele momento. Olhava fixamente o casal na cama. O homem da sua vida. A sua melhor amiga. Deveria ter algo a dizer, algo a cobrar, ou simplesmente a dor. Mas não. Olhava-os apenas, com olhos assustados, como se dali a minutos a visão fosse simplesmente se dissipar e tudo voltaria ao normal.
Mas eles a encaravam de volta também com o ar de susto. Ninguém a esperava de volta nos próximos cinco dias. Deveria estar a quilômetros num compromisso, mas o maldito vôo tinha sido cancelado, mas a maldita empresa aérea estava falida e não colocara combustível no avião que a levaria para o contrato recém assinado e a deixava agora naquele dilema.
Romperia com o recém adquirido marido? Ou com amiga de longa data?
Iria embora e assumiria ser o ser mais imbecil da terra?
Mataria alguém naquele quarto? Ouviria as desculpas?
Mas ele nem se desculpava, não havia palavras para aquilo, os dois a deixaram no aeroporto. Os dois planejavam isso. Há quanto tempo?
Ficou parada a porta do quarto, uma vez brincando dissera que faria isso mesmo. Que ficaria e ouviria o que as pessoas teriam para dizer. Mas ouvir não significava aceitar, ou perdoar. Nem sabia porque a palavra perdão entrava agora em sua mente.
“Nossa, Ângela, você sempre perdoa tudo. Isso é cansativo”. – a voz da amiga se insinuava numa lembrança velha que nem conseguiria precisar a data. Perdoaria agora?
Ficou olhando enquanto eles se vestiam, ficou olhando para ver se ao menos tinham o cinismo de inventar qualquer coisa. Mas não, continuavam calados. Como ainda pouco não faziam, só por isso ele viera ao quarto imediatamente ao entrar no apartamento. A frieza em que se encontrava agora não parecia com ela. Conseguiria se ver entre lágrimas, entre escândalos e outras atitudes. Mas o torpor que a assaltava depois da cansativa briga com a companhia a área era bem próprio de alguém que não brigaria mais por nada naquele dia. Entrou no banheiro e foi trocar de roupa. Puxou a roupa da cama... pensou melhor e foi para o quarto ao lado. Trancou a porta. Não queria mais falar com ninguém nunca mais. Nunca mais.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Em noites escuras, surpresas acontecem

Noite de chuva

A noite estava escura e nem mesmo os relâmpagos conseguiam iluminá-la. Eles pareciam contidos nas massas espessas de nuvens que cobriam o céu. O coração dela estava igual. Era uma massa escura que reverberava como os trovões e se continha como os raios da noite de chuva que estava prometendo. Era uma imitação de seus olhos. Olhar nebuloso que deixava escapar filetes de lágrimas. Finas gotas no quarto e fora dele.
Quando achava que não tinha mais motivos para chorar, a dor voltava e se revolvia dentro do coração até chegar ao estômago, a parte mais sensível do seu corpo. O corpo que agora estava jogado nu na cama, que contorcia-se a cada nova investida da dor que nascia no coração e seguia em direção ao abdômen, para concentrar-se toda lá. Não sabia mais o que fazer. O que pensar. O choque da descoberta tinha sido tão grande, que achava que aquela crise tinha sido uma das piores desde que o conhecera.
Ah! Quando o conhecera encontrava-se assim também, crises constantes da gastrite que a acompanhava desde o cursinho. Crises constantes de enxaqueca que nunca tinham cura.
- Quem ama não adoece! – dissera ele brincando certa vez, quando tinham que terminar um trabalho para a faculdade e ela reclamava das dores constantes – Você leva a vida muito a sério – reclamava ele quando a encontrava chateada por algo não ter dado certo.
Eram sete longos (e por que não dizer maravilhosos) anos de convivência e quatro de casamento. Ele a tinha ensinado a se divertir, a rir e a se tratar melhor. Ela o tinha ensinado a ser responsável, dedicado e mais ambicioso. Em tudo tinham se completado. Tinham crescido juntos. Dera a ele tudo que mais belo possuía. Na realidade, ele descobrira que ela tinha muito a oferecer.
Agora, aquilo... aquela descoberta que a deixara abalada. Que a deixara doente. Tudo o que havia de mais sagrado em suas crenças estava perdido. A imagem não lhe saía da cabeça, o susto fora tão grande que literalmente adoecera.
O carro deles entrando num motel barato, às quatro da tarde, era demais, para qualquer mulher, ainda mais para uma mulher como ela. Que tinha quase reaprendido a viver com ele. Como fazer agora? O que fazer agora? Não havia saída! Ou aceitava o fato dele ter outras ou simplesmente deixaria de viver. Não sabia ir embora, não sabia brigar, não sabia mais nada. Era toda e completamente dependente da existência dele. Trabalhava para ele. Amava para ele. Vivia para ele.
E agora, isso, a descoberta de que era uma tonta apaixonada que não enxergava um palmo diante do nariz.
As lágrimas vinham incontroláveis. Queria tomar uma decisão. Queria parar de chorar e falar e agir como uma mulher moderna. Sair de casa, encarar a vida. Pelo menos não haviam filhos para sofrer com a separação.
Filhos! – esse pensamento trouxe mais lágrimas
Quantas vezes não conversaram sobre o assunto? Não, nunca tinha sido a hora. Havia sempre algo a cumprir. Eram um casal moderno. Trabalhavam, tinham prazos. Filhos atrapalhariam a rotina, o crescimento na carreira, dos dois. E agora? E agora que ela queria ir embora. (ou não queria?) O que levaria? Se nem haviam filhos para serem levados. Para serem visitados. Se fosse embora não haveria motivos mais para se verem.
Esqueceriam-se!!
Não existia, para ela, pior desgraçada do que aquela.
A chuva continuava a cair e ele não chegava. Nem sabia se queria que chegasse. Nem sabia se falaria, ou se brigaria, ou se ficaria calada, só ouvindo. Ouvindo-o mentir sobre a reunião em que a secretária dissera que ele estava. Ela sabia muito bem que tipo de reunião era. Incluía cheiro de sabonete barato e horas de gemidos, num quarto de motel de quinta.
Chorava, não sabia mais o que fazer. Chorava.
Queria bater, esbravejar, mas não era mais ninguém porque sequer tinha o orgulho de ameaçar ir embora. Era toda a vida dela. Os anos mais felizes, as datas mais comemoradas. Ele que passara por cima de todos os seus medos. Ele que a ensinara a rir e até a deixar gargalhadas saírem do peito de encontro ao mundo.
Como ir? Como deixa-lo? Não teria vida se o fizesse. Mas ela queria viver?

A porta do quarto se abriu. E como se as nuvens também se tivessem aberto, os raios escaparam e as gotas no telhado desabaram, num barulho assustador. Tão assustador quanto o fato dela continuar sem saber o que fazer, agora.

Ele viu seu vulto deitado em posição fetal no escuro. Pensou que as dores hoje deveriam estar bem fortes. Ela sempre se trancava no escuro quando não suportava mais a dor de cabeça. Ou a dor de estômago. Eram seus pontos mais sensíveis. Ficou preocupado.

- Já tomou alguma coisa, meu amor? – dissera baixinho, aproximando-se da cama cobrindo-a com o próprio corpo na tentativa de ajuda-la.
Às vezes essa atitude a deixa mais calma e ela conseguia dormir. Eram quatro anos de casamento, talvez para algumas pessoas pareceria pouco, mas para ele eram tudo o que de melhor tinha vivido. Aprendera a cuidar dela. A ser cuidado. A trocar tudo. Notícias boas e ruins. Aprendera que quando ela se trancava no quarto, no escuro, era porque a dor estava acima de seu controle.
Lembrou da primeira vez que a viu naquele estado, teve tanto medo de perde-la que chegou a chorar de alívio quando médico disse que ela ficaria bem apesar de ser uma úlcera, que precisava de cuidados e que não raro ela teria crises, uma vez que seu problema era de fundo nervoso. Não havia cura.
- Amor .. – ele chamou

Amor? Ela pensou, quando seria possível acreditar nele de novo? Quando agora, mesmo que eles brigassem e ela contasse que sabia de tudo, do seu caso com a outra. Quando ela poderia perdoa-lo e esquecer, e não pensar que o cuidado e o carinho eram falsos?


Ele não podia mais se conter, precisava contar, estava ansioso. Sabia que a deixaria mais nervosa e mais preocupada, e que provavelmente as dores aumentariam. Mas tinha que dividir aquilo com ela, aliás, ele não tinha só notícias ruins. Claro. Tão angustiado estava por contar-lhe o ocorrido da amanhã que esquecera de pensar no que lhe acontecera naquela tarde. Isso! Daria as duas notícias juntas.

- Amor ... – Ele respirava fundo tentado se controlar – Eu preciso contar uma coisa...

O que será? O que viria agora? Ele diria que não a queria mais, que estava indo embora porque encontrara a aquela outra mulher e desco...

- O que é? – conseguiu murmurar

- Eu sei que você vai ... talvez não seja uma notícia boa, mas eu preciso contar e ...
- Fala logo, você esta me torturando – disse entre lágrimas.
- Roubaram nosso carro essa manhã. Desculpe, eu ia te contar na hora do almoço, mas você estava tão animada com as compras para o novo projeto que achei melhor...
- O quê? – Ela virou-se lentamente para ele, vendo apenas o que os raios permitiam observar. Teve ímpetos de gargalhar, mas apenas sorriu... ainda com medo de acreditar no que ouvia.
- É isso. Eu pensei que aquele meu amigo na polícia fosse conseguir localiza-lo à tarde, mas não e então ... é isso. Estamos sem carro. Fui roubado essa manhã.
- E a reunião? Que reunião era aquela que você teve de tarde? – Ela precisava juntar todos os detalhes, ter certeza de que era realmente verdade que não era ele entrando no motel naquela tarde.
- Ah! Não vale! Essa era a outra notícia. Nosso projeto foi aprovado. Estou promovido e sabe o que é melhor? Vão contratar você! –Ele ria e a beijava.
- Então, você estava em reunião e nosso carro foi roubado pela manhã e podemos ter filhos agora? – ela parecia confusa, mas era porque estava tentando desabotoar a camisa dele. E já beijava seu peito.
- Você quer? – Ele perguntou segurando as mãos dela, mesmo olhando-a apenas através dos flashes dos raios.
- Se quero! Quero tudo. Quero você, quero filhos seus. Quero te amar agora.

A chuva passou e aqueles que ficaram acordados puderam ver quando a linda lua cheia surgiu no céu. Esplendorosa.

Márcia Cristina Lima