terça-feira, 7 de setembro de 2010

As atitudes

Por vezes, na vida, precisamos tomar certas atitudes que nunca imaginamos ser capazes.
Mas pelo bem é preciso!
Pelo nosso bem e pelo bem dos outros!

Uma vez, há algum tempo eu escrevi esse conto, pois precisava me dizer que atitudes mesmo as mais absurdas são necessárias.

As atitudes

Por noites e noites durante toda a adolescência o sonho se repetira. Nem sabia dizer ao certo se era sonho ou pesadelo. Quando começava tinha uma sensação boa. Um sentimento bom de proteção e carinho. De cuidado.
O sonho era sempre com ela bem garotinha deitada num quarto infantil e escuro, quando ele chegava. Ela nunca sabia por onde ele entrava, às vezes, parecia se materializar na luz da lua que entrava pela janela.
Ele chegava devagar, aproximava-se da cama e sentava-se ao lado dela. O rosto sempre no escuro, a única luz que entrava ficava as suas costas. Ela não sabia quem era. Mas podia sentir que era alguém com muito carinho porque vinha até a cama e tocava-lhe carinhosamente os cabelos.
No início sentia-se bem, acalentada, feliz, amada. Era a melhor de todas as sensações. Alguém a velar-lhe o sono. Começava adormecer, dentro do sonho, e a sensação parecia mudar. Não conseguia definir se era porque a mão dele já estava acariciando o corpo perto do bumbum, só sentia que aos poucos a confiança e o carinho que sentia naquelas mãos que tocavam carinhosamente ia mudando.
O coração começava a acelerar, o sonho tomava ares de pesadelo. Daqueles em que não se consegue gritar, nem se mover. Que o corpo todo é tomado de um pavor tão grande que parece estátua sem vida, sem reação.
Sentia as pernas tremerem e mãos leves e acariciantes descendo por elas. Sentia nojo e asco quando elas voltavam perna acima, agora pelo lado de dentro. Tinha vontade de se encolher, de gritar, mas não conseguia, não conseguia acordar.
Sabia que aquela tremedeira toda anunciava perigo e o rosto que não podia visualizar, agora não era mais carinhoso, mas que se transformava numa mascara nojenta de monstro. Não podia vê-lo, nunca conseguiu. Mas sabia, sabia que expressão ele deveria ter.
O coração agora só faltava sair peito a fora. O corpo inteiro suava de esforço. Esforço para gritar, esforço para se mover, mas era impossível.
O ápice do nojo ainda não tinha chegado. Ele enfiava os dedos, sem cuidado. Às vezes arranhando, machucando e ficavam lá brincando por um tempo. Enquanto uma mistura de nojo e prazer ia fazendo o corpo dela tremer ainda mais.
Tremia tudo: as narinas, as pernas, o peito. Mas o pior, ela sabia, ainda estava para começar. Ele faria com que ela tocasse uma parte do corpo dele que estava muito dura. Ele gemeria e diria coisas nojentas, mas essa não era ainda a pior parte do sonho, como um filme de terror já conhecido e pela metade, sabia que as piores sensações ainda estavam por vir. Ele queria que ela dissesse que gostava e murmurava coisas desconexas. Como se não bastasse violentar apenas o corpo, era preciso violentar também o espírito, a mente.
Por fim, ele tiraria a mão de dentro dela, a punha na boca, diria que ela tinha um gosto bom e arreganharia suas pequenas pernas para deitar-se ali no meio delas. Colocar lá a parte dura do corpo dele.
Se jogava pesado e fedorento em cima dela, suando. Ela, quieta, com dor, mas sem ação. Refém do medo, dentro de um sonho que se repetia sempre do mesmo jeito e sempre parecia nunca acabar. Ainda era obrigada a ouvir: “Se você gritar, ou contar para alguém, eu digo para sua mãe que você gosta. Conto tudo o que acontece entre nós”.
O medo virara terror e escorria silencioso pela face.
O mesmo sonho-pesadelo se repetira durante anos e anos em quase toda a adolescência. O mesmo, sem nenhuma nuance diferente, o carinho, a violação, as palavras, o odor nojento, o terror de dormir e sonhar. Acordava sempre gritando, corria para o banheiro numa tentativa de lavar-se de tudo aquilo. A mãe nunca soubera o que acontecia. As palavras ecoando em sua cabeça: “se sua mãe souber”, “se sua mãe souber”.
Mas quando o padrasto morreu, perto dela completar dez anos, deu graças a Deus.
Não houve nada mais providencial do que aquela queda do barbeador elétrico na banheira.
Esse era um outro sonho que a atormentava algumas vezes. Aquele homem peludo nu, com um sorriso nojento convidando-a para entrar na banheira. Ela saindo correndo do banheiro, ouvindo os gritos dele. Mas esse sonho só a acometia às vezes quando alguma coisa a fazia lembrar “de como a vida dela era melhor com o padrasto vivo”.
A mãe ficou muito triste com a morte dele.
Os pesadelos de toda a adolescência haviam parado já há algum tempo talvez pelo excesso de remédios para dormir que vinha tomando escondido, ou talvez pelo excesso de atividades que vinha se impondo. Mas agora, agora eles estavam de volta, de repente. Não sabia dizer se era porque a mãe estava de namorado novo. Ou se era porque o menino mais bonitinho da rua a tinha convidado para conversar naquele canto escuro.
Não, de escuridão ela fugia, não gostava. Dormia a noite toda com o abajur aceso.
Agora a mãe e o namorado. Trancados no quarto. Igual quando ela conhecera o padrasto.
Os pesadelos de volta. Sabia que teria quer fazer alguma coisa com eles.
Será que ela teria que deixar cair novamente o barbeador na banheira?

Márcia Lima
Maio de 2001

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Quando o sonho vira realidade

O jornal de hoje me fez lembrar desse conto perdido há quase dez anos entre os meus pertences.
É engraçado ver um conto acontecendo.
Será que os outros também correm certo risco.
Tomara, tenho muitos muito felizes.
Aproveitem


A aparição


Era uma tarde calma e quente de verão. Numa dessas tardes que de tão quente o tempo parece parado. Quando parece que nada de interessante pode acontecer. Como se o mundo inteiro estivesse em suspenso, esperando até que o sol abrandasse e nos deixasse com mais vontade de viver. Era numa tarde assim em que eu assistia televisão e me abanava quando ouvi os gritos e as gargalhadas vindas da rua.
Pensei, “quem seria tão estúpido a ponto de contrariar o tempo?”
- Vem aqui, Sú – gritou alguém de lá.
Mas ele sabia que nem era preciso me chamar, minha curiosidade não me deixaria em casa esperando o tempo passar enquanto pessoas riam lá fora. Levantei ainda meio contrariada porque o calor era demais e estava eu bem feliz e fresca na frente do ventilador, mesmo assim a curiosidade não pode esperar e saí para ver o quê causava tanta confusão.
Quando o vi, não acreditei. Tudo bem que estávamos na Amazônia e que a maioria das pessoas do Sul e Sudeste do Brasil acreditam que aqui os jacarés andam na rua. Mas a coisa é tão fantasia que até nós mesmos nos assustávamos de ver um e, ainda mais, tomando sol tranqüilamente no meio da rua, como se fosse o dono do pedaço, o abusado.
A gritaria, os risos e o susto tomavam a vizinhança, e todo mundo chamava todo mundo para vir ver o bicho, em pouco tempo esquecemos o calor em nome da nova atração. O bicho não devia ter mais que 50 cm de comprimento e não deveria chegar a 4 quilos. Mas foi a sensação de uma tarde quente, em que nem disposição tínhamos para uma brincadeira mais comum.
Com o espírito prático, meu tio o amarrou para que não fugisse, nem machucasse ninguém (embora eu duvidasse muito que o bichinho fosse capaz de alguma maldade, era tão pequeno e parecia tão filhotinho). Ficamos a cogitar o que fazer com aquele animal que de estimação não podia virar. Nunca ouvi falar em jacaré de estimação.
Uns diziam, “vamos comer”, mas só de pensar no trabalho de tratar e tirar a pele de um bicho tão pequeno já nos enchia de preguiça. Sem contar o nojo que algumas pessoas claramente demonstravam. “Vamos chamar alguém”, sugeriu outro. Pensaram em tv e jornal. Mas desistiram.
Até que alguém chegou a uma conclusão: Os bombeiros. Idéia que todos acataram. Na verdade, não entendi bem por que chamar os homens do fogo, se a situação nem era de emergência.
Mais ou menos no fim da tarde quando o sol já caía e a brincadeira já tinha perdido metade da graça, para os adultos, o caminhão vermelho dos bombeiros chegou. Seis grandes homens, pelo que eu pude ver, desceram. O mais bonito de todos (eu não podia deixar de reparar, né?) desceu por último, parecia ser quem comandava porque chegou perguntando pelo animal.
- Eu sou o chefe do resgate. Onde está? - ele disse.
Embora eu ficasse me perguntando quem ele teria vindo resgatar. E a única resposta que achei foi: “Bem que poderia ser a mim. Adoraria ser resgatada, por ele”, falei para meus próprios botões.
Mas minha atenção voltou-se novamente para o bichinho que eles tinham vindo buscar. O quê homens tão grandes fariam com um bichinho tão indefeso e tão pequeno?
Foi quando ele nos surpreendeu com uma pergunta que deixou todos em alerta.
- Tem água aí a atrás?
Ora moramos num bairro, que foi construído em cima de um igarapé. Água era o que não faltava. Aí ele nos amedrontou. Fez crianças pensarem em Aligátor, o filme e os adultos ficarem realmente preocupados.
- Esse animal é filhote, ele deve ter pai e mãe, irmãos.
Pensei que se o filhote tinha 50 cm centímetros, quanto deveria medir o pai daquela criatura? E imagens dos filmes de terror com jacarés gigantes e homens grandes resgatando mocinhas indefesas, como eu, foram as que não me deixaram dormir naquela noite. Mas nem por isso deixei de sonhar. Afinal, o chefe do resgate valia ou não o risco?

Márcia Cristina Lima
21/05/2001.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Um conto com cara de realidade

Muitas coisas são difíceis de viver, acredito que por ser mimada, a frustração é a pior delas. E pra lidar direito com a impossibilidade um conto possível.

A enganação

Fazer papel de forte era com ela mesma, enganar, mentir, fingir seus próprios sentimentos. Engolir rancores era sua especialidade, remoer pequenas imperfeições alheias e próprias seu passa tempo favorito, sua consumição.

Até encontrá-lo. Fora numa época estranha, uma época em desejou ardentemente amar alguém. Ele apareceu. Cortesia, cuidado, carinho, elogios?
“Todos não agem assim?” Um sorriso sem graça e a percepção de que ele começara algo que ela finalmente não era capaz de controlar. Mas definitivamente era uma época estranha, porque mesmo com a vontade de se entregar, o medo ainda restava. Achou que se mostrava toda. Abria todos os baús, contava todos os segredos, do que ele tinha proposto, ela estava lá, achando que se entregava.
Mas, como na música do Chico do Buarque, embora tivesse começado algo, ele não tinha aberto as gavetas, mostrado armários, embora compartilhassem muito, idéias e inteligência, sentimentos ainda estavam guardados, esquecidos. Sensações não eram postas à tona.
Mergulharam juntos numa mentira de rancores engolidos. De pequenas palavras e gestos que machucavam, mas passavam como diversão.
Enganando-se, protegendo-se, arrebentando-se.
Numa conversa franca em que nenhum dos dois se mostrou, o relacionamento acabou. Palavras, idéias, racionalidade, não foram suficientes para se entenderem. Faltou a verdade. Porque só a verdade é capaz de libertar. Ela continuou tentando ser a forte, porque por mais lágrimas que tivesse derramado, ela não tinha se dado a chance de ser verdadeira.
Escondeu-se, escondeu as incertezas, escondeu as raivas, tentou não invadir, para manter a liberdade dos dois.
Ele não entendeu. Porque por mais inteligente que fosse é sempre difícil compreender quando se ama. A libertou, porque achou que ela assim o queria.
Hoje, andam pela vida, tentando se achar, sem saber onde o erro começou ou quem foi o culpado. Querendo começar, com medo de errar de novo!!

Marcia Lima

sábado, 10 de julho de 2010

Quando não há esperança

Sempre faço isso. Quando tudo na vida me doí, eu sonho.
Assim mantenho-me no caminho.

"A fada-criança vive cada dia mais feliz.
O corpo que a comporta é que as vezes se perde e sofre!"

Sonhos são como Deuses se vc não acredita nele. Eles Deixam de existir.

Pra viver, eu tenho que acreditar sempre...

Um conto de idas e vindas pelo caminho.

Encontros e desencontros


- Greg – um grito quase infantil ecoou pelo quarteirão

O rapaz que ia a frente respirou fundo, todo o esforço que tinha feito para não ser visto fora em vão. Parecia que ela possuía um sexto sentido em relação a ele. “Tinha faro”, como gostava de pensar, ou então vivia para atormentá-lo.
- Oi, Anna! – respondeu sem muito prazer – O que faz até esta hora no colégio? – perguntou referindo-se às três horas que já haviam se passado desde que o sinal que anunciava a saída havia tocado.
- Eu estava tão ocupada que nem vi as horas passarem. A equipe de artes estava montando um Mural tão legal, que não consegui resistir e resolvi ajudá-los. Vai ser o máximo a apresentação deles no sábado. Você vai? - perguntou com um sorriso.
- Pra onde? – quis saber, sem se interessar pelo que ela estava dizendo. Afinal ela acabaria pedindo para ir junto e realmente não sentia a mínima vontade de bancar a babá de ninguém. Já estava cansado de ficar pra cima e pra baixo com uma garotinha. Queria era estar com os amigos para azarar um pouco, o que a companhia dela impedia.
- Ora. No Encontro das Comunidades Católicas, será a abertura dos Jogos Católicos. Esqueceu?
- Sei – respondeu sem muito interesse - Um dia inteiro de palestras. Não sei se vou agüentar – completou.
- Que é isso! – riu e bateu de leve nos ombros dele - Se não fores é bem capaz do treinador te tirar do time de basquete. Seria uma injustiça. Treinaste tanto.
Pelo menos quanto a isso ela tinha razão. Se existia uma coisa que as freiras não perdoavam eram os atletas que não davam atenção aos artistas, oradores e às celebrações litúrgicas do colégio.
- Se não tem outro jeito. Vou, né?
Ela sorriu. Não conseguia lembrar a quanto tempo se conheciam e nem quando a amizade que sentia por ele, quando criança, tinha se transformado nesse sentimento estranho, que mistura posse e carinho ao mesmo tempo.
Talvez tenha sido no dia em que ele voltou de viagem, depois de quatro anos morando com o pai em Porto Alegre. Ele tinha voltado para visitar a família da mãe, onde foi obrigado a ficar por causa do falecimento repentino do pai, num acidente de carro. Foi um período difícil para todos na pequena vila de casas do subúrbio. Afinal cada um tinha uma maneira de lidar com a morte de um homem que praticamente roubara o filho de uma das criaturas mais queridas daquele lugar. Poucos respeitavam, embora soubessem que Gregório sentira muito.
Assim foi o retorno dele! Como “irmã de plantão”, termo usado pelo próprio Gregório durante toda a infância deles, cabia a Anna consolar e tentar fazê-lo se readaptar à nova terra, à nova família e às mudanças que haviam ocorrido por aqueles lados enquanto ele estava longe.
A proximidade, e porque não a beleza e a fragilidade que ele demonstrara à época do acidente, fez com que ela nutrisse por ele um sentimento maior do que a amizade. Com o passar do tempo, Gregório se re-adaptara, fizera amigos, superara a tristeza e não suportava mais as atitudes quase sempre superprotetoras dela. “Principalmente, porque ela parece estar o tempo inteiro sorrindo. Nunca triste, nunca depende de ninguém. Isso me irrita”, costumava comentar com os amigos.
Eram atitudes que ela não percebia. O cansaço que ele demonstrava às vezes parecia o fantasma da tristeza que queria voltar e tomar conta dele de novo e ela prontamente tentava afastá-lo. Fazendo justamente aquilo que ele tentava evitar. Ultimamente, percebera que ela era ainda uma menina, e as novas amizades começavam a cobrar dele uma atitude de garoto normal. Namorar, sair e azarar. Mesmo porque eles percebiam o quanto as meninas cochichavam quando ele passava. Ele era o centro das atenções femininas e ficava perdendo tempo com uma menina do primário.

O Encontro já havia começado e Anna, nervosa, ainda se perguntava o que Greg faria para se livrar da suspensão, que com certeza conseguiria por estar ausente. No meio de uma das apresentações, Anna conseguiu encontrá-lo, junto com um grupo de rapazes, avaliava as meninas que passavam. Engraçado, nunca tinha pensado em Greg como um garoto como aqueles que ficavam avaliando as pessoas pela roupa, ou beleza. Mas lá estava ele, fazendo exatamente isso. Até que uma menina de cachos dourados o desafiou a alguma coisa. Durante a cena que se seguiu Anna não pôde respirar. Ele dizia coisas que a faziam rir, e num determinado momento, ele quase a beijou na boca. A cena toda foi demais para ela, sem poder agüentar a repentina onda de ciúmes que lhe contraiu o estômago, saiu. Trancou-se num dos reservados do banheiro e no meio de uma sessão de enjôos incontroláveis começou a chorar. Um barulho vindo da porta a fez se conter. Vozes diziam alguma coisa ainda difícil de entender.

- Greg me solta – a voz de uma garota ficou mais alta – Você não pode fazer isso – risinhos nervosos acompanhavam as palavras.
- Por quê? - a voz de rapaz, inconfundível, seguiu.
- Por que você tem namorada e não quero me meter em confusão – ria.
- Namorada? Não. Quem inventou isso? – jogava também o rapaz
- Ora você vive para cima e para baixo com aquela menina do primário. Na realidade, nem sei o que viu nela – risos, que foram capazes de deixar Anna ainda pior.
- Você disse bem, criança, como posso namorar uma criança? Além disso, ela é um pé no saco, vive atrás de mim e nem percebe que não tenho paciência pro seu falatório. Nem posso fazer isso – sons de beijo eram ouvidos – Nem isso – risinhos acompanhavam as palavras.
“Criança! Criança!”, nunca parara para pensar no que ele pensava dela, nunca cogitara perguntar o que ele achava. Mas ali estavam as palavras dele: “Criança, e o que é pior, uma criança pé no saco”. Uma mágoa maior do que a dor tomou conta dela e ao ouvir o estrondo de uma porta de reservado se abrindo começou a sair do banheiro, tentando não fazer barulho.
Mas numa daquelas ocasiões em que quanto mais se deseja uma coisa todo o universo parece conspirar contra. Com um baque infernal, a porta do banheiro se abriu e Irmã Maria entrou. No rosto, uma expressão de quem caça o próprio Demônio. Expressão que mudou imediatamente ao deparar com o rosto lavado em lágrimas de Anna.
- O que foi minha filha? Anna, o que você tem? Perguntou a freira enquanto olhava ao redor. Nesse momento o silêncio reinava, absoluto, no banheiro.
- Nada - pensou em dizer alguma coisa que denunciasse o casal, mas sentia-se na obrigação de defendê-lo, afinal fora assim que ele agira com ela em anos durante a infância e ele não tinha culpa se de repente cometera a burrice de se apaixonar.
- Você está chorando. Como nada? Sentes alguma dor?
- Sinto. E de repente como que para comprovar a veracidade das palavras seu estômago se contorceu. – Acho que comi alguma coisa estragada - completou segurando o abdômen – Será que a Irmã Graça já está na enfermaria?
- Não, mas vamos lá. Eu te dou alguma coisa para dor. – Disse a freira segurando a menina pelos ombros e já quase que completamente esquecida da denuncia de casais namorando no banheiro.
Como recompensa para sua mentira, Anna fora obrigada a ingerir todo o tipo de analgésico. Mas nenhum deles foi capaz de fazê-la melhorar. Vozes se repetiam em sua cabeça, principalmente, aquela que ouviu tantas vezes quando criança, a voz daquele garoto que ajudara a consolar, de quem fora amiga, para retribuir um apoio de épocas na infância.
A cabeça cheia de perguntas dividia-se entre culpá-lo e culpar-se por esse sofrimento. Fazia de tudo para não encontrá-lo. Ao mesmo tempo que ainda tinha vontade de conversar com ele, perguntar sobre tudo. Sentia-se tão sozinha e abandonada que chegou a procurar um dos amigos dele. Que com a delicadeza natural de um garoto de quinze anos informou que realmente Greg vivia se queixando do fato dela não largar do seu pé.

- Preciso falar com você! – uma voz disse atrás dela enquanto lhe segurava o braço. Por mais que o coração batesse forte e a respiração faltasse, Anna tentou a todo o custo manter a calma. Perdoar, por mais que fosse o que desejava fazer, estava fora de cogitação.
- Sobre o quê? – respondeu com um olhar sério.
- Sobre duas semanas atrás. Obrigado. Você me salvou de uma situação constrangedora. Acabariam me expulsando da escola. Muito obrigado, mesmo. Você parece meu anjo da guarda – ele disse tentando rir.
- Ok. Aquilo fica por conta das inúmeras vezes que você não deixou os meninos me baterem quando éramos crianças. É só? – Perguntou tentando livrá-lo do incomodo de tê-la por perto e tentando também se controlar pra não chorar na frente dele.
A pergunta e a vontade dela de se afastar o pegaram de surpresa, havia esperado duas semanas para se aproximar dela porque queria curtir bem a liberdade, acreditando que quando fizesse isso ela se aproveitaria para pegar no pé dele de novo. E a atitude dela o surpreendeu, no fundo, viera agradecer porque as caminhadas para casa estavam sem graças e solitárias. Sentira falta até das risadas dela.
- Não, quer dizer é ...
- Então, é só, ou não? – o rosto continuava sério, pois as lágrimas já se formavam nas pálpebras e não sabia quanto tempo mais agüentaria.
- Você não vai lanchar? Posso te pagar .... – disse ele ainda meio atordoado com aquele comportamento completamente diferente
- Não, não pode. Você não me deve nada. Você precisa ficar com as pessoas da sua idade, e eu com as crianças do primário – uma raiva incontida começava a aflorar.
- Você disse .... – se interrompeu. Lembrando que não havia pedido desculpas porque não sabia o que ela tinha ouvido ou em que momento entrara no banheiro, mas ao que parecia ela já estava lá.
- Disse o quê? Disse que você não me deve nada e nem precisa agradecer foi apenas uma retribuição por anos em que me livrou de surras na rua. Agora, por favor, eu preciso ir. As crianças, minhas amigas, me esperam.
- Não estou entendendo. Por que você está com raiva?
- Não é pra entender. Vá viver sua vida, me esqueça. Vou fazer o mesmo, não era isso que você sempre quis? Era só me dizer
- Quer me explicar...
- Não tem nada pra explicar. – Saiu

E assim foi, a história seguiu seu curso embora algumas pessoas sofram, outras vivam bem. Mas com o tempo quem sofre aprende que sofrer não é tudo. E quem acha que vive bem começa a sentir falta de alguma coisa. Assim aconteceu com eles. Nos três anos em que faziam questão de desviar os caminhos sempre que se encontravam na rua. Como moravam na mesma vila, foram obrigados a passar por situações constrangedoras como as festas de fim de ano e de São João, quando as famílias, muito próximas, acabavam freqüentando as casas um do outro e sorrisos polidos eram necessários, mas foram vivendo e se evitando até que numa dessas festas de São João:
Greg olhava a movimentação da rua e percebeu como se sentia só. Os amigos haviam viajado e os que estavam por perto estavam acompanhados. Lembrou-se de uma época em que a presença de uma menina era constante, alguém que o fazia rir, que gostava de estar com ele, que não cobrava maturidade, que gostava dele como ele era. E principalmente não fazia tantas cobranças como sua última namorada.
E a garota estava ali, na janela da casa ao lado. Sorrindo, um sorriso diferente daquele que se acostumara a ver. Vez por outra sentia falta dela, da amizade que sobreviveu a quatro anos de distância, quando ele estava viajando. Do sentimento de reencontro, da felicidade, que viu nos olhos dela, da admiração que ficou clara desde o princípio. Foi só ao pensar nisso, que percebeu o quanto fora cruel, não deveria ter dito o que disse, também deveria ter sido mais homem e continuado a conversa naquele dia na escola. Deveria ter cobrado saber o porquê de tanta raiva. Deveria, Deveria ... Agora arrependia-se do episódio que destruíra a amizade e a admiração que ela nutria por ele. Teve, mais uma vez, vontade de pedir desculpas de trazer os bons tempos de volta.
Anna estava sentada a janela do segundo andar, olhando a movimentação dos vizinhos para a arrumação da festa. Há tempos, o sofrimento havia passado, aprendera a viver mais cautelosamente, já tivera namorados, mas vivia temerosa de uma nova traição. Não que já tivesse sido traída, mas temia a falta de sinceridade, costumava sempre terminar um relacionamento, quando o rapaz começa a ganhar alguma importância na sua vida.
De repente se sentiu observada e um medo profundo tomou conta dela. Greg a observava do pátio de casa. Um aceno de cabeça a fez perceber que ele tinha visto que ela já havia percebido. Com tempo desenvolvera um sorriso que sempre dirigia a ele quando era obrigada a encontrá-lo ou falar-lhe. Um sorriso polido e desprovido de qualquer sentimento. E foi esse sorriso que ofereceu. Mas no mesmo instante se arrependeu, alguma coisa no rosto dele mudou, uma decepção ficou evidente. Quis, não soube explicar porque, mudar aquela situação, mas ainda não se sentia preparada pra ter qualquer tipo de contato com ele. As lembranças ainda a machucavam.
- Anna! Alguém chamou – Já era noite e a quadrilha da vizinhança se arrumava para dançar – Estão perguntando se queres dançar – a tia gritou da porta
- Quero! Disse rindo, todo o ano era a mesma coisa, pensou, ninguém ensaiava nada, mas sempre teimavam em querer que todos os moradores dançassem, ou pelo menos um representante de cada família.
Quando desceu as escadas, o par que tinham escolhido pra ela a esperava.
- Pensei que tinha desistido – disse Greg, olhando-a nos olhos e percebendo a centelha de desconfiança que brilhava no semblante dela.
- Quando tomo uma decisão está tomada – respondeu. Sabendo que servia pra ele também se fosse um bom entendedor não precisaria dizer mais nada.
- Ok. Vamos sair antes que pensem que desistimos. – sorria, apesar de demonstrar que entendera o recado.
O ensaio começou, isto é, os testes pra saber se os pares dariam certo e que passos dançariam pra coisa não ficar tão bagunçada assim. Durante quase todo o tempo, a mão de Anna estava suando. Sentia-se ao mesmo tempo feliz e insegura. Queria sentir nada, como vinha se vigiando para fazer sempre que tinha que estar com Greg, não prestar atenção nele, pra não se sentir imbecil, pra não se machucar.
Mas naquela noite, ele estava especialmente atencioso, tomava cuidados, que se pareciam com os que tinha com ela, quando eram crianças. Que lembrava tempos bons. Não soltava a mão, mesmo quando deveria e quando ela dizia que estava suando ele enxugava-lhe o rosto, sempre brincando, dizendo gracinhas, mas olhava-a nos olhos. A situação já a estava deixando triste. De uma certa forma, ele queria a amizade de volta e ela sabia disso.
Mas percebeu que ainda não estava livre do sentimento do início da adolescência, principalmente porque ele era bonito demais, encantador demais, enquanto estivesse com raiva, enquanto guardasse ressentimentos poderia se ver livre das tentativas do coração de se apaixonar de novo.
Finalmente a quadrilha dançou e encantou, ou melhor, divertiu, que era seu principal objetivo. Ao final, todos saiam rindo e dois ou três vizinhos comentaram sobre finalmente os dois resolverem participar da brincadeira de rua. Um outro vizinho, um pouco mais “alto” disse que formavam um belo par.
- E sempre formaram - completou um outro - desde que eram crianças. Eu lembro, o Greg defendia a menina como um verdadeiro cavalheiro, aí daquele que dissesse ou ao menos relasse o dedo nela - comentou.
Os dois se olharam, e de repente o assunto surgiu. Outros começaram a lembrar também os velhos tempos, fazendo com que os moradores mais novos imaginassem como era a vida naquela vila que já existia há pelo menos trinta anos.
O assunto pareceu ativar uma parte perdida da memória deles, que de repente começaram a lembrar histórias engavetadas há tempos. De uma hora para a outra toda a reserva dela havia sumido, e conversavam a toda, riam e brincavam. Até que alguém percebeu que eles conversavam.
- Se re-descobriram, os dois – passou brincando um amigo.
O assunto morreu e ela tentou ir embora.
- Por favor, não se afaste de mim – ele pediu.
Um medo absurdo tomou conta dela e lembranças dolorosas vieram à tona. Tentando rir, pra não quebrar o clima de fraternidade que haviam partilhado disse:
- Ok. Maninho, mas sua mana precisa ir ao banheiro.
- Tá. Mas mano não.
Ela o fitou sem entender
- Não quero ser seu irmão
- Tudo bem. Amigos?
- Também não
- Explique-se, por favor. – parte dela já querendo fugir, o coração apertado.
- Sinto saudades suas. Sei que te magoei. Queria que me perdoasse e me desse uma chance.
- Não sei do que você está falando. Ao que me consta essa história morreu há anos.
- Não. A história continua aí na sua cabeça. Te afastando de mim.
- Convenhamos você não foi o que se pode chamar de um irmão perfeito.
- Pedi desculpas.
- Não sei se posso confiar em você. Falava coisas de mim, por trás, porque nunca me disse que não queria minha companhia era melhor do que ficar dizendo coisas a meu respeito a todos que perguntavam quem eu era.
- Eu era a um adolescente, dá pra me perdoar?
Os ânimos foram ficando acirrados. E antigas raivas começaram a aflorar.
- Tudo bem a estupidez foi minha mesmo. Quem mandou me apaixonar por um moleque.
- Apaixonar? – uma surpresa genuína brilhou no olhar dele.
- Falei demais, me deixa ir.
- Não. É por isso tanta raiva. Tanto rancor. Você era apaixonada por mim?
- E daí? Fui.
- Pensei que ...
- Deixa pra lá. ok? Foi há tanto tempo. Já até passou
- Sinto a sua falta. Sabia?
- Achei que era uma criança pé no saco – uma mistura de raiva incontida e alguma felicidade começavam a perturbá-la.
- Você não vai esquecer nunca. Não é?
- Na verdade, não sei. Quero esquecer, mas volta e meia me pergunto: Será que não estou sendo demais? Será que tal pessoa quer mesmo a minha companhia? Vivo me preocupando se serei aceita, ou algo do gênero. Será que você consegue entender isso?
- Eu sei, a culpa é minha, acabei te deixando um trauma. Vamos. Eu preciso pagar pelos meus pecados. Vamos tentar de novo.
- Ok. Amigos. Passado morto. Mas agora preciso ir.
- Não sem antes me dar um beijo de bons amigos! – algo no rosto dele deveria tê-la feito desconfiar dessa repentina aceitação da amizade. Mas mesmo assim ela não viu, ou não quis ver.
- Tubo bem! – Sorriu meio sem graça. E aproximou-se mais dele para o beijo. Ele se abaixou para deixar o rosto mais próximo. Mas no momento exato a situação mudou um par de braços fortes a agarrou e bocas se encontraram.
Num misto de ira e fragilidade ela ficou imóvel por um tempo. Mas não deu pra se conter muito. O beijo começou a ser correspondido com alguma hesitação até que num determinado momento ele a afastou e disse:
- E Então? Ainda vai fugir de mim?
Num sorriso meio constrangido ela respondeu:
- Eu não estava fugindo. Só precisava sair... E ainda preciso. – o rosto nada demonstrava. Ele ainda meio confuso perguntou.
- Quer namorar comigo?
- Namorar? Não ... não sei. Eu .... – Medo de sofrer era evidente em cada uma de suas palavras.
- Vamos lá . Me de uma chance. Juro! – ele cruzou os dedos em frente à boca – Nunca mais pretendo te magoar.
Ela sorriu. Não fora sempre isso que queria? Aí estava ele jurando nunca mais magoa-la.
- Se você me der outro beijo, juro que penso seriamente sobre uma resposta positiva para sua pergunta. – disse sorrindo. Enquanto ele também acompanhava o riso.
E foi durante esse beijo que que estouraram os fogos em comemoração à noite de São João.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Um sonho

Depois de quase dois meses vim depositar um sonho para aqueles que curtem sonhar.

Sobre minha vontade de beija-lo

Eu, aqui, miro sua boca, como quem mira o alvo, mas tem medo de atirar. Eu, daqui, ouço sua voz e permaneço quieta, perdida nos sonhos de beija-lo. A cada dia é mais difícil essa convivência. Eu sempre tenho disso, achar que por alguém ser mais do eu posso ser, só por ser sincero, quero beija-lo, cala-lo, toca-lo, subjuga-lo. Porque sei que eu faria. Sei que calaria todas as suas idéias brilhantes se o beijasse.
Antes, eu teria medo dessa experiência. Se encontrasse alguém como você, que diz coisas que se parecem tanto comigo: insegurança, medo, rejeição, sairia correndo. Mas agora eu percebo, quero te dar um pouco do que consegui. Seria como se te mostrasse qual é o caminho de saída desse poço sem fundo.
Mas o que eu faço? É só te zoar, contar piadas, fazer graça até você rir de si mesmo, de mim mesma. Eu sou assim, como você se descreve. Sou essa “loser” que você se condena. Mas aprendi a não contar isso para ninguém. Eu aprendi e tenho vontade de te ensinar com beijos, com minha boca cheia de certeza de que te quero, com minhas mãos cheias de carinho por você.
Mas você vê? Não, continua preso e cego em seu próprio mundo de desgraças engraçadas. Eu estou aqui no seu quarto, descobrindo pela primeira vez os defeitos da sua cama, o barulho do seu colchão e você continua falando, como se o mais importante fosse entender, quando para mim, o mais importante é sentir, é respirar no ar, é intuir. Trocamos de assunto com a velocidade própria dos que muito falam e pouco tem a dizer. Eu continuo aqui com essa vontade de me aproximar.
Não é bem uma rejeição que temo. Mas você é um tipo de pessoa nova no meu dia-a-dia e não quero perde-lo, nem assusta-lo. Eu e minhas certezas temos medo de afasta-lo antes que possa aproveitar mais de sua companhia.
Mas a cada dia minha boca sente mais sede da tua, e da próxima vez que eu tiver uma oportunidade se considere acertado. Porque não vou só mira-lo. Eu vou atingi-lo com essa força que cresce dentro de mim. E me dá todas as razões para prova-lo.

Márcia Cristina Lima
17/08/02

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Voltei, nem demorei tanto. Então para vocês um conto bonitinho como só eu sei escrever. Na verdade, bonitinho é um eufemismo para um conto ruinzinho que lembrei outro dia por cauda de um amigo. O nome também é uma homenagem a esse amigo.
Acho que essa acabou sendo uma história de amor diferente!!!

Mas está aí!

Para quem curte e pra quem não curte histórias de amor inventadas hehehe


O vertiginoso

Dentro da sala de aula, ele olhava desolado os alunos fazendo contas. Era estranho, porque embora amasse absolutamente ensinar, estava cansado. Cansado da falta de disciplina daqueles garotos, perceberiam no ato as armadilhas dos cálculos se os tivessem praticado o mínimo que fosse.
O celular vibrou no bolso, ele sorriu. Em menos de quinze minutos estaria livre de tudo. Dos rostos contorcidos, das calculadoras bipando e dos lápis riscando os papéis.
O mais arrogante dos alunos tinha levantado a cabeça para buscar inspiração na prova do vizinho. Era tão cansativo, perceber que eles simplesmente ignoravam metade das aulas.
Pelo menos uma aluna sorria. E ele teve certeza que ela havia notado. E de repente como se um raio de luz cortasse a sala em três pontos diferentes outros dois alunos também começaram a sorrir.
Teve sua recompensa naqueles sorrisos.
Não tinha gastado tempo à toa, nem elaborado aulas práticas em vão.
- acabou! – ele disse sério
Metade dos alunos consultaram os relógios, ainda faltavam alguns minutos para o fim do tempo de prova.
- Gabi, Antonio e Marcos, aproximem-se – pediu – expliquem para a turma qual era o teste afinal.
Gabi, começou a falar mas Antonio a interrompeu perguntando em que questão eles tinham parado.
A maioria ainda tentava decifrar o segundo e o terceiro problema.
Ele voltou a falar – tenho apenas mais cinco minutos, a nota da turma está nas mãos de vocês três. Se conseguirem fazê-los entender o que acho que descobriram todo mundo fica com nota oito sem precisar me entregar as provas.
Todos os alunos olharam para os três, ansiosos. A maioria precisava de uma boa nota, mas era difícil confiar assim tão facilmente.
- estou esperando! Era nesses momentos que se sentia recompensado. Valia a apena ensinar ele acreditava piamente nisso.
Gabi, foi a primeira a falar, os cinco problemas tinham uma só resposta. Antonio continuou como se os três tivessem ensaiado um poema. Marcos encerrou mostrando no quadro o único cálculo que resolvia todos os problemas.
Ele pegou a pasta, disse tchau pra turma e saiu em direção ao estacionamento. Poderia ter recolhido as provas só para avaliar até onde os alunos tinham chegado. Mas não queria mais perder tempo. Estava ansioso desde que o celular vibrara dando o sinal.
Ela havia chegado!
De longe, ele a viu, encostada no carro folheando uma revista. Era exatamente do que precisava para aliviar o estress. Olhar pra ela se alimentar de seu sorriso, respirar sua hálito.
Era engraçado, uma felicidade esquisita o tomava quando pensava nela. Quando a via então era tomado de um sentimento quase sem nome. Mas que ele reconhecia, acreditava que ensinar lhe dava satisfação até conhecê-la. E descobrir essa nova sensação de felicidade. Nunca admitiria pra ninguém, mas desde que a conhecera tinha uma sensação de tontura, quando a tocava, ou ouvia sua voz. Para ela, a vida inteira era pouco.

domingo, 2 de maio de 2010

Lá vem eu de Novo....

Lá vem eu de novo... coração nos olhos...
Meninos, e meninas, eu sei, eu sei, faz tanto, tanto tempo que eu nem mereço mais desculpas, eu é que andei me enrolando comigo mesma, e meu coração atordoado de novidade me deixou ainda mais maluca... mas aí vai um continho, só pra não perder o costume.... beijinhos...

Sobre o conto: é uma junção de músicas que eu gosto porque sem música ninguém vive e um conto amor porque sem amor a vida nem valeria a pena...

Nossa história com Zeca Baleiro

Quando tudo começou, quando eu finalmente o conheci, era tipo: Quase Nada, do Zeca Baleiro. Não sabia nada sobre ele, pra onde ia, ou porque vinha. Não sabia nem que parte da estrada dele ficava no meu caminho. Ou se era apenas um atalho pra um lugar melhor, quem sabe apenas um desvio do caminho verdadeiro. Eu num sabia nada, mesmo assim, fui andando, nem tinha medo, nem receio. Apenas seguia em frente.
Quase que, como se andando em frente, atropelando todos os medos, pudesse ver um sentindo na vida. Pelo simples desejo de estar com ele.
Afinal de contas para mim, esse rapaz era um prato fundo cheio de tudo que eu precisava para matar toda a fome que eu tinha no mundo e de mundo.
Eu, sempre protegida, agora me via com essa fome de novidade, de coisas que eu num costumava fazer e vendo-me instigada a ver além da TV, além da janela, além do mundo quadrado que me cercava, filtrado por outros olhos, cerceado por outras vontades. Ele me instigava a ser real, pisar no chão.
Mas hoje, hoje eu to no mundo e canto Lenha, sem medo, sem receio, apenas vejo o fogo acender quando o vejo sorrido. Me incendiando, provocando.

Marcia Lima, sempre apaixonada.

quarta-feira, 10 de março de 2010

A vida nova que nos inspira

Na semana passada recebi a visita de um anjo, que por sinal ainda está lá por casa. Fiquei tão tomada de felicidade que acabei escrevendo uma ode ao amor inabalável. Sei que criei o blog para divulgar os contos, mas que é esse amor é tão grande, e tão maravilhoso que quero anunciar ao mundo.
Espero que gostem!!

Grow Up

Racionalmente, quando você chega a uma certa idade (geralmente depois dos trinta), já pensa com medo sobre ver nascer, ou crescer ou acompanhar o crescimento de uma criança. Você pensa nervosamente em noite insones, em doenças sem nome, em preocupações eternas. Em seguida, surge a imagem de uma criança de cinco anos, correndo nos lugares inadequados, fazendo mal-criação na rua, gritando por alguma coisa. Você quase se enxerga no lugar da mãe ou pai nervoso sem saber exatamente o que fazer, sem saber que desculpas dar. Além disso, você acompanha com dor humanitária no coração o mundo cada dia mais animal em que vivemos, onde pessoas sem nenhuma noção conseguem maltratar ou até assassinar crianças inocentes.
Depois, você lembra de como era quando adolescente, de como vivia contra todas as regras (ou não vivia) e recorda que a adolescência começa cada vez mais cedo, que as crianças estão cada vez mais erotizadas, que toda aquelas angustias sobre espinhas e amores não correspondidos eram simplesmente o inferno para você que viveu cada uma dessas horríveis sensações. Como ver alguém passar por tudo isso sem poder fazer absolutamente nada? Considerando que você conseguirá um dia ser próximo o suficiente para acompanhar cada uma dessas mudanças, e não ficará louco de ciúmes quando vir o ser que você acompanhou crescer, amou desde a infância dedicou a ele seus melhores sentimentos, se fechar em si e o que é pior dizer com todas as letras que você simplesmente não sabe, nem entende nada. Alguém já havia dito isso, mas é realmente catastrófico e dolorido ser excluído dessa maneira, pelo único ser que você achou que nunca o rejeitaria.
Dessa forma, é simplesmente desanimador pensar em ter um filho. É frustrante achar que não é possível dedicar todos os seus sentimentos a um cachorro fiel, que invariavelmente não fará você sofrer a não ser que morra e simplesmente ele é capaz de morrer, e quando o fizer seja por velhice ou acidente, vai quebrar seu coração.
Você pensa, pensa, pensa e reflete sobre todas as linhas escritas na coluna do contra na equação de ter um filho. No fim, chega à conclusão que estar só e não ser obrigado a coisas absurdas como ter três empregos para manter outra pessoa além de você mesmo é o caminho mais seguro da vida adulta.
Então, num belo dia, alguém coloca em seus braços, vindo sabe-se lá de onde, um recém-nascido. Quando você menos espera se pega com coração transbordante de um sentimento completamente novo, que inclui proteção desmesurada, carinho exacerbado, irracionalidade crônica, e vira e mexe um medo sem tamanho o toma. Você se pega pensado em procurar outro emprego, você se vê sonhando com confortos e comodidades que nunca quis pra si mesmo. Aí você lembra de tudo que as suas amigas casadas disseram sobre ter um filho e aquele sorrisinho cínico que você tinha no rosto achando que era inveja da sua livre vida de solteira morre. Porque afinal elas até podem ter inveja de você poder sair quando quiser, mas o que elas têm em casa, nem se compara com nada que você vai encontrar na rua.
Então numa bela noite você olha pro rostinho dormindo, dessa criaturinha, que nem chega a ser carne da sua carne, mas é parte de você porque seus sentimentos por ela são tão indescritíveis e gigantescos, e canta sem perceber e sem medo de ser rejeitado ou cafona
“Eu sei que vou te amar, por toda a minha vida eu vou te amar, em cada despedida eu vou te ama. Desesperadamente..”.
e, melhor, descobre que é mais verdade agora do que nunca tinha sido antes.

À minha afilhada recém-nascida, Vivian Maria.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Quando a amizade me toma

Eu sei, eu sei...
Me perdi no tempo e gostaria de culpar a minha internet de casa que está uma porcaria, mas na verdade eu sou a única culpada. O aniversário meio que me tirou de órbita e tentei ficar sóbria o suficiente...
Mesmo assim faço um mea culpa a respeito deste conto. É um sonho culpa do Caetano...

A poesia está para a prosa
Assim como o amor
está para a amizade
e quem há de negar que está lhe é superior...

Espero que gostem

Amizade

Eles eram amigos. Desses amigos para quem se conta tudo. Do problema de espinhas nas costas, da indecisão quanto a que carreira seguir, das brigas constantes com o pai, das vontades de sumir, de morrer e das paixões. E ele era cheio de paixões. Nos três anos de amizade ela já ouvira uns cem nomes de meninas que foram as paixões dele. Toda semana ele estava apaixonado por uma menina diferente.
Ela também contava tudo para ele. Das tentativas de arrumar o cabelo inquieto, do problema de pele oleosa, da vontade da mãe de lhe comprar um aparelho para os dentes. Só tinha uma coisa que ela não contava. E ele nem percebia. Ela tinha uma paixão. Uma paixão secreta. Uma paixão que doía feito ferida aberta quando ele aparecia com um novo nome de menina. Quando ele parecia ver todas as meninas do bairro, sabia as qualidades de cada uma. Mas não a via, não a enxergava como garota. Ela era a amiga. E ele era tão egoísta que nem percebia nos assuntos dela a falta de um coração pulsando, um coração que amava.
Até aquele dia.
Ela começou a contar que queria viajar, passar um ano ou dois fora. Aperfeiçoar o inglês. No fundo, ficar longe dele um pouquinho, sem saber de sua vida e de seus amores, para aliviar a própria dor. A idéia de viajar nem chegava a ser um sonho, nem uma aspiração era ainda só uma vontade. Mas mesmo assim ela começou o assunto. Dividiu com ele essa vontade que talvez a falta de grana dos pais a impedissem de concretizar.

- Quanto tempo? – ele parecia chocado
- Sei lá. Um ano ou dois – ela nem sequer prestou atenção na reação dele.
- Mas quanto tempo você ainda vai ficar? – a voz dele estava meio embargada.
- Também não sei. Posso terminar o segundo grau por lá – para ela o assunto era tão distante da realidade que continuava riscando o chão com os pés e olhando fixamente os riscos, sem perceber o estado de espírito em que ele se encontrava.
- E eu? – ele perguntou de repente
Ela sorriu e levantou a cabeça, pronta a dizer que escreveria quando viu seu rosto banhado em lágrimas.
- Você está chorando? – Em anos de amizade não era a primeira vez que o via chorar, mas ele nunca tinha demonstrado nenhum sentimento especial por ela.
- Minha melhor amiga vai embora e você quer que eu fique como? Feliz? – Ele também, além de triste, parecia impaciente.
- Mas eu não vou morrer e também volto e escrevo e sei lá pode ser que eu nem vá...
Ele a abraçou com força e ela se surpreendeu
- Você é importante para mim – ele disse, aí ela teve vontade de chorar, era tudo o que sempre quisera na vida: ser importante para ele. Começou a tremer e retribuiu o abraço.
Ficaram algum tempo abraçados, colados mesmo. A boca dele perto da orelha dela. Os corações, ambos, batendo descompassados. Aquela posição, e aquele contato perturbando-a demais. Quis se afastar. Começou uma tentativa de explicação
- Talvez eu nem vá ...
- Não diga isso, é seu sonho – ele respondeu, meio contrariado.
Ela estava tão acostumada a ser a amiga, a tranqüiliza-lo que começou, não sem um certo aperto no peito:
- Eu sei, mas você sabe como é, falta grana. Sei lá... Tem tanta coisa...
Ele ficou quieto. Quieto demais. Aquilo de estar ali, colada nele, naquela quietude sentindo o coração dele bater perto do dela. Sentindo o hálito quente dele em seu pescoço, começou a perturbá-la mais do que ela gostaria de demonstrar, tentou afastá-lo.
- Não. Espera... eu ... não, fica assim comigo. Deixa eu sentir você.
Tentando amenizar o clima ela quis brincar e tentou sorrir
- Gustavo, você está se aproveitando de mim, sou sua amiga – tentava rir.
- Namora comigo? – foi a pergunta à queima roupa que ela ouviu como resposta.
- O quê? – não podia acreditar em seus ouvidos, mesmo que a boca dele tivesse falado aquilo quase diretamente nos ouvidos dela, e fosse quase um sussurro. E mesmo que tivesse provocado aquela reviravolta dentro dela, não podia acreditar.
- É isso! – a respiração dele estava difícil parecia o princípio de ataque de asma, mas talvez não fosse.
- Ângela, minha Ângela – ele começou a dizer tentado abraça-la ainda mais. Como se fosse possível chegar bem mais perto dela – Vou ficar sem rumo se você for embora. Pensar em não ter mais você por perto me fez perceber que eu... – ele procurava as palavras. Ela tremia. E começava a lagrimar, ainda tentava racionalizar o que estava acontecendo.
- Você não pode ficar sem sua amiga – Ela simplesmente não conseguia acreditar no que ele estava querendo dizer, embora já sentisse dentro do peito um fiozinho de esperança crescendo.
- Não, não é isso. Ainda tá meio confuso para mim também, mas eu quero. Agora eu percebi o quanto eu quero
- O quê? – ela estava ansiosa.
- Te beijar, Ângela, eu quero te beijar na boca - e nem bem acabou de falar já estava com os lábios colados nos dela.


Márcia Cristina Lima
22 de Abril de 2001.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

De volta

Quase dez dias, desculpem...
A despeito de estar se aproximando meu aniversário, fiquei em duvida entre postar algo de amor e dor com final feliz, ou trágico... acho q minha nova idade é mais trágica q feliz. Apostei nesse fim... espero q gostem.

Educação Sentimental

Nenhum dos livros que lera na vida a tinha preparado para aquilo. Nenhuma dos dizeres populares, nenhuma das lições a tinham alertado para aquele tipo de situação. O torpor, a falta de iniciativa a assaltava naquele momento. Olhava fixamente o casal na cama. O homem da sua vida. A sua melhor amiga. Deveria ter algo a dizer, algo a cobrar, ou simplesmente a dor. Mas não. Olhava-os apenas, com olhos assustados, como se dali a minutos a visão fosse simplesmente se dissipar e tudo voltaria ao normal.
Mas eles a encaravam de volta também com o ar de susto. Ninguém a esperava de volta nos próximos cinco dias. Deveria estar a quilômetros num compromisso, mas o maldito vôo tinha sido cancelado, mas a maldita empresa aérea estava falida e não colocara combustível no avião que a levaria para o contrato recém assinado e a deixava agora naquele dilema.
Romperia com o recém adquirido marido? Ou com amiga de longa data?
Iria embora e assumiria ser o ser mais imbecil da terra?
Mataria alguém naquele quarto? Ouviria as desculpas?
Mas ele nem se desculpava, não havia palavras para aquilo, os dois a deixaram no aeroporto. Os dois planejavam isso. Há quanto tempo?
Ficou parada a porta do quarto, uma vez brincando dissera que faria isso mesmo. Que ficaria e ouviria o que as pessoas teriam para dizer. Mas ouvir não significava aceitar, ou perdoar. Nem sabia porque a palavra perdão entrava agora em sua mente.
“Nossa, Ângela, você sempre perdoa tudo. Isso é cansativo”. – a voz da amiga se insinuava numa lembrança velha que nem conseguiria precisar a data. Perdoaria agora?
Ficou olhando enquanto eles se vestiam, ficou olhando para ver se ao menos tinham o cinismo de inventar qualquer coisa. Mas não, continuavam calados. Como ainda pouco não faziam, só por isso ele viera ao quarto imediatamente ao entrar no apartamento. A frieza em que se encontrava agora não parecia com ela. Conseguiria se ver entre lágrimas, entre escândalos e outras atitudes. Mas o torpor que a assaltava depois da cansativa briga com a companhia a área era bem próprio de alguém que não brigaria mais por nada naquele dia. Entrou no banheiro e foi trocar de roupa. Puxou a roupa da cama... pensou melhor e foi para o quarto ao lado. Trancou a porta. Não queria mais falar com ninguém nunca mais. Nunca mais.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Em noites escuras, surpresas acontecem

Noite de chuva

A noite estava escura e nem mesmo os relâmpagos conseguiam iluminá-la. Eles pareciam contidos nas massas espessas de nuvens que cobriam o céu. O coração dela estava igual. Era uma massa escura que reverberava como os trovões e se continha como os raios da noite de chuva que estava prometendo. Era uma imitação de seus olhos. Olhar nebuloso que deixava escapar filetes de lágrimas. Finas gotas no quarto e fora dele.
Quando achava que não tinha mais motivos para chorar, a dor voltava e se revolvia dentro do coração até chegar ao estômago, a parte mais sensível do seu corpo. O corpo que agora estava jogado nu na cama, que contorcia-se a cada nova investida da dor que nascia no coração e seguia em direção ao abdômen, para concentrar-se toda lá. Não sabia mais o que fazer. O que pensar. O choque da descoberta tinha sido tão grande, que achava que aquela crise tinha sido uma das piores desde que o conhecera.
Ah! Quando o conhecera encontrava-se assim também, crises constantes da gastrite que a acompanhava desde o cursinho. Crises constantes de enxaqueca que nunca tinham cura.
- Quem ama não adoece! – dissera ele brincando certa vez, quando tinham que terminar um trabalho para a faculdade e ela reclamava das dores constantes – Você leva a vida muito a sério – reclamava ele quando a encontrava chateada por algo não ter dado certo.
Eram sete longos (e por que não dizer maravilhosos) anos de convivência e quatro de casamento. Ele a tinha ensinado a se divertir, a rir e a se tratar melhor. Ela o tinha ensinado a ser responsável, dedicado e mais ambicioso. Em tudo tinham se completado. Tinham crescido juntos. Dera a ele tudo que mais belo possuía. Na realidade, ele descobrira que ela tinha muito a oferecer.
Agora, aquilo... aquela descoberta que a deixara abalada. Que a deixara doente. Tudo o que havia de mais sagrado em suas crenças estava perdido. A imagem não lhe saía da cabeça, o susto fora tão grande que literalmente adoecera.
O carro deles entrando num motel barato, às quatro da tarde, era demais, para qualquer mulher, ainda mais para uma mulher como ela. Que tinha quase reaprendido a viver com ele. Como fazer agora? O que fazer agora? Não havia saída! Ou aceitava o fato dele ter outras ou simplesmente deixaria de viver. Não sabia ir embora, não sabia brigar, não sabia mais nada. Era toda e completamente dependente da existência dele. Trabalhava para ele. Amava para ele. Vivia para ele.
E agora, isso, a descoberta de que era uma tonta apaixonada que não enxergava um palmo diante do nariz.
As lágrimas vinham incontroláveis. Queria tomar uma decisão. Queria parar de chorar e falar e agir como uma mulher moderna. Sair de casa, encarar a vida. Pelo menos não haviam filhos para sofrer com a separação.
Filhos! – esse pensamento trouxe mais lágrimas
Quantas vezes não conversaram sobre o assunto? Não, nunca tinha sido a hora. Havia sempre algo a cumprir. Eram um casal moderno. Trabalhavam, tinham prazos. Filhos atrapalhariam a rotina, o crescimento na carreira, dos dois. E agora? E agora que ela queria ir embora. (ou não queria?) O que levaria? Se nem haviam filhos para serem levados. Para serem visitados. Se fosse embora não haveria motivos mais para se verem.
Esqueceriam-se!!
Não existia, para ela, pior desgraçada do que aquela.
A chuva continuava a cair e ele não chegava. Nem sabia se queria que chegasse. Nem sabia se falaria, ou se brigaria, ou se ficaria calada, só ouvindo. Ouvindo-o mentir sobre a reunião em que a secretária dissera que ele estava. Ela sabia muito bem que tipo de reunião era. Incluía cheiro de sabonete barato e horas de gemidos, num quarto de motel de quinta.
Chorava, não sabia mais o que fazer. Chorava.
Queria bater, esbravejar, mas não era mais ninguém porque sequer tinha o orgulho de ameaçar ir embora. Era toda a vida dela. Os anos mais felizes, as datas mais comemoradas. Ele que passara por cima de todos os seus medos. Ele que a ensinara a rir e até a deixar gargalhadas saírem do peito de encontro ao mundo.
Como ir? Como deixa-lo? Não teria vida se o fizesse. Mas ela queria viver?

A porta do quarto se abriu. E como se as nuvens também se tivessem aberto, os raios escaparam e as gotas no telhado desabaram, num barulho assustador. Tão assustador quanto o fato dela continuar sem saber o que fazer, agora.

Ele viu seu vulto deitado em posição fetal no escuro. Pensou que as dores hoje deveriam estar bem fortes. Ela sempre se trancava no escuro quando não suportava mais a dor de cabeça. Ou a dor de estômago. Eram seus pontos mais sensíveis. Ficou preocupado.

- Já tomou alguma coisa, meu amor? – dissera baixinho, aproximando-se da cama cobrindo-a com o próprio corpo na tentativa de ajuda-la.
Às vezes essa atitude a deixa mais calma e ela conseguia dormir. Eram quatro anos de casamento, talvez para algumas pessoas pareceria pouco, mas para ele eram tudo o que de melhor tinha vivido. Aprendera a cuidar dela. A ser cuidado. A trocar tudo. Notícias boas e ruins. Aprendera que quando ela se trancava no quarto, no escuro, era porque a dor estava acima de seu controle.
Lembrou da primeira vez que a viu naquele estado, teve tanto medo de perde-la que chegou a chorar de alívio quando médico disse que ela ficaria bem apesar de ser uma úlcera, que precisava de cuidados e que não raro ela teria crises, uma vez que seu problema era de fundo nervoso. Não havia cura.
- Amor .. – ele chamou

Amor? Ela pensou, quando seria possível acreditar nele de novo? Quando agora, mesmo que eles brigassem e ela contasse que sabia de tudo, do seu caso com a outra. Quando ela poderia perdoa-lo e esquecer, e não pensar que o cuidado e o carinho eram falsos?


Ele não podia mais se conter, precisava contar, estava ansioso. Sabia que a deixaria mais nervosa e mais preocupada, e que provavelmente as dores aumentariam. Mas tinha que dividir aquilo com ela, aliás, ele não tinha só notícias ruins. Claro. Tão angustiado estava por contar-lhe o ocorrido da amanhã que esquecera de pensar no que lhe acontecera naquela tarde. Isso! Daria as duas notícias juntas.

- Amor ... – Ele respirava fundo tentado se controlar – Eu preciso contar uma coisa...

O que será? O que viria agora? Ele diria que não a queria mais, que estava indo embora porque encontrara a aquela outra mulher e desco...

- O que é? – conseguiu murmurar

- Eu sei que você vai ... talvez não seja uma notícia boa, mas eu preciso contar e ...
- Fala logo, você esta me torturando – disse entre lágrimas.
- Roubaram nosso carro essa manhã. Desculpe, eu ia te contar na hora do almoço, mas você estava tão animada com as compras para o novo projeto que achei melhor...
- O quê? – Ela virou-se lentamente para ele, vendo apenas o que os raios permitiam observar. Teve ímpetos de gargalhar, mas apenas sorriu... ainda com medo de acreditar no que ouvia.
- É isso. Eu pensei que aquele meu amigo na polícia fosse conseguir localiza-lo à tarde, mas não e então ... é isso. Estamos sem carro. Fui roubado essa manhã.
- E a reunião? Que reunião era aquela que você teve de tarde? – Ela precisava juntar todos os detalhes, ter certeza de que era realmente verdade que não era ele entrando no motel naquela tarde.
- Ah! Não vale! Essa era a outra notícia. Nosso projeto foi aprovado. Estou promovido e sabe o que é melhor? Vão contratar você! –Ele ria e a beijava.
- Então, você estava em reunião e nosso carro foi roubado pela manhã e podemos ter filhos agora? – ela parecia confusa, mas era porque estava tentando desabotoar a camisa dele. E já beijava seu peito.
- Você quer? – Ele perguntou segurando as mãos dela, mesmo olhando-a apenas através dos flashes dos raios.
- Se quero! Quero tudo. Quero você, quero filhos seus. Quero te amar agora.

A chuva passou e aqueles que ficaram acordados puderam ver quando a linda lua cheia surgiu no céu. Esplendorosa.

Márcia Cristina Lima