quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Tomando o norte

Me dou o prazer de fechar os olhos e me devolver para tua cama. Às vezes até sem esperar quando dou por mim, estou lá de novo, estou te ensinando a se libertar das amarras que eram tuas roupas. Estou te mostrando como funciona a química das peles. Estou lá nos teus lençóis com cheiro de gozo, lambuzado. Quando menos espero já fiz uma viagem no tempo e sou capaz de ressentir novamente tua língua divagando sobre a minha pele.

Abro os olhos e o vazio, dói, os fecho novamente e te busco nesse lugar mágico onde estas agora. Esse lugar mágico onde és só minha, tua língua, tua pele, tua boca, teus cabelos, tuas unhas tudo em ti de novo é para mim uma fonte inesgotável de doçura. Até quando me permitias meus minutos de vilanias, eras para mim.

Volto no tempo, volto o mundo, volto o amor, mas o amor não volta. Há em mim, sob a pele, um desejo sem tamanho pela frequência da tua cama, e tua cama, cadê? Onde está? É quase como querer voltar para casa dentro de um sonho repleto de brumas, eu sei o caminho, eu sei o sabor, o cheiro, mas cadê? Onde está a casa? Onde posso enfiar meus dedos e aquecê-los? Cadê o conforto da tua casa onde eu posso ser eu, e vibrar a cada minitoque, a cada expectante sorriso enviesado teu?

Esses momentos em que te volto, te trago e te sonho, são poucos do quase nada que a gente viveu. Do que a gente escondia do mundo, do mundo que não nos permitia. Gosto de me esconder ainda do mundo e buscar na minha pele cada marquinha de língua que deixastes e até de dentes também, lembro os lugares sensíveis que descobristes, estremeço. Gosto de tocar meu corpo, lembrando os caminhos da mão que me fizeste percorrer.

Sei que eu ainda não sabia exatamente o que fazer. Mas na minha ignorância, brincaste bem mais do que eu permitiria. Tenho que abrir os olhos. Sei que tudo é passado e quando fecho os olhos sonho uns futuros meio loucos de a gente de volta de mãos dadas pelo mundo, mandando todos os porquês e diferenças à merda.

Tenho que abrir os olhos, a hora vai bater, o tempo vai chegar, a minha casa, onde eu me enfiava e cabia perfeitamente se perdeu na bruma, o hoje é um lugar inadequado, mais inadequado do que a cama em que a gente descobria as partes do corpo do outro. Mais inadequado do que saber que toda a tua família estava lá embaixo assistindo TV. Ou que em minutos nos chamariam para o jantar. Mais inadequado do que o banheiro da escola para onde a gente fugia tentando manter os outros longe, se esconder dos olhares juízes.   

O conforto não era nosso maior prazer, talvez o que mais nos impulsionava era saber que alguém poderia ver, nos intuir, nos sacar, ver nos nossos rostos as intenções sacanas, nossos risinhos de promessas. Eu sabia que ninguém ao nosso redor era burro a ponto de não perceber o que fazíamos ou como nos entretínhamos naqueles infindáveis trabalhos de fim de semana, naquelas infindáveis horas de descobertas por autores e bandas.

Eu sei que meu pavor maior, embora muitas vezes cogitado, embora muitas vezes descartado, era sermos descobertas. Foi aquele riso cínico da tua tia, como quem diz entender o que acontecia, que me fez responder feito gato acuado. Sim, eu pirei, sim a culpa é minha. Sim, eu fugi ainda que em nossas promessas eu parecesse a mais corajosa de nós.

Sei que hoje há um cerco ao teu redor, primos, tios, irmãos, te buscam, te trazem, me afastam com olhares, mas não podem me impedir de te encontrar quando fecho os olhos e eu fecho os olhos com frequência, muita frequência. Fecho os olhos sozinha, fecho os olhos com ajuda, qualquer ajuda, de um xaropinho qualquer e até com as recentes pedras baratas que me fornecem sem perguntas, o importante mesmo é fechar os olhos, te manter perto de mim.

De olhos fechados eu vejo os teus seios, fecho os olhos para beija-los e sentir teu gosto, fecho os olhos para agarrar tuas coxas, fecho os olhos para pressionar meu joelho entre as tuas pernas e te sentir abri-las, quentes, molhadas. Fecho os olhos e mordisco a tua barriga, fecho os olhos e sinto o gosto do teu corpo e entro em transe de olhos fechados nos teus estremecimentos, eu gozo agora quase sempre sem ninguém, de olhos fechados.

É pra ti cada gozo, é pra ti cada sonho. Futuro não existe, apenas o prazer de agora em fechar os olhos.


Marcia Lima

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Olhos de farol

Remexo num sono inquieto, reviro e volto ao mesmo lugar.
Uma sensação de frio e desconforto me toma, como desejos insatisfeitos. 
No frio de abandono, que o corpo treme, preciso de satisfação.
Mãos e pés tateiam em busca de algo, o vazio ao lado na cama se agiganta.

O quarto escuro parece um poço sem fundo, eu não consigo respirar, não encontro o ar.
Algo dentro de mim precisa sair, ou pior, desejo alguma coisa externa que não me pertence.
Acender a luz não adianta.
Procurar o telefone me atormenta.
Não quero e quero ainda mais.
Chego a sentir o cheiro do meu sonho/desejo espalhado pelo quarto.
Não posso, não devo.
Começo a me odiar, por desejar tão profundamente algo que pelos cálculos, pelas análises frias, nunca bate, nunca fecha.
O corpo grita por uma satisfação que conscientemente não preciso.
O suor frio que escorre pelas costas e molha a testa provoca calafrios, como em abstinências.

O telefone grita. 
É como se ele tivesse ouvido o chamado, como se o meu desejo vibrasse na energia dele também.
Nem respiro, nem penso.
Vem.
O vazio se acaba, o desconforto se esvai.
O desejo todo vira dúvida: Quero/não quero. Devo/não devo.
Mas o corpo, a pele, não tem juízo.
Ele veio!
Me forço a parar de pensar quando percebo que não sei o que fazer, como agir. Sei que as palavras não terão sentido. Ficaram presas no limbo entre o que desejo e o que sinto, o mais provável é que causem mais confusão.
O corpo não pensa.
A luz acesa me delicia, como se só os olhos dele pousados em mim, me tornasse visível.
Um arrepio, uma satisfação ainda que apenas de expectativa.
Eu sei que o chamei. 
Eu sei que o quis, quis tanto que ele ouviu e veio, mas ao mesmo tempo estou petrificada, sem ação.
Por onde começar? O que fazer?
Sorrir?
Tenho consciência de não saber que mensagens meus olhos emitem, estou atordoada com tudo que sinto e tudo que me trava.
Acho que ele sabe, que entende. Não sei.
Ele se aproxima e busca a minha mão, me traz para os braços.
Estou toda e completamente vazia de ações. É estranho e difícil não ter ações, não pular, não exigir, não rir.
Mas mesmo estranhando, ele me conhece! Ele me conhece!
Ensaia uma dança, move nossos corpos, começo a me largar nele, vou destravando ao seu toque, relaxando ao contato de sua boca.
Ele me conhece!
Dançamos uma dança nossa, com a música que só existe em nossa cabeça. Sua mão escorrega pelos braços, sua boca desce pela pele visível do colo.
Inspiro, expiro.
Sou essa mulher.
Sou essa que derrete aos toques.
Suspiro.
Esqueço todos os tormentos.
Ele está!
Sou agora uma massa movida por uma música que não existe, carregada pelos toques que me acedem, me revivem, me resgatam da escuridão.

Reencontro o ar na boca dele.
A dança nos leva à cama, devagar.
Não há pressa, nem palavras.
O encontro é de encaixes, a mão alcança os lugares a que pertence. As carnes tem a marca e se entregam às mãos que a tocam.
Sinto, desejo, quero.
A cama já não é mais assustadora.
Existe oxigênio para qualquer ação mais enérgica.
O quarto finalmente está iluminado.
São os olhos dele que acendem tudo ao redor.

Marcia Lima

03/02/2015 

sábado, 13 de dezembro de 2014

Voo no tufão

No meu primeiro dia lá, fui recebida com um “nunca vi você por aqui” e sorrisos efusivos de boas vindas. Nesse dia, ele esqueceu a bermuda e o agasalho na praia. Disseram que quem esquece é porque quer voltar. Eu sorri sem graça.
No segundo, ele veio buscar suas roupas e finalmente aceitou, o sempre recusado, convite para almoçar, ficou por aqui a tarde inteira. Depois que ele foi embora encontramos um sei lá o quê da prancha largado no jardim. Eu sorri meio surpresa, meio feliz e os donos da casa se entreolharam.
No terceiro dia, ele chegou sem graça. Numa espécie de consenso geral era eu quem deveria lidar com ele, aceitei o papel. Estendi o equipamento, ele o pegou da minha mão e caiu no mar. Muitas manobras depois, voltou, ao que tudo indicava nossa companhia lhe era agradável.
Quando ele foi embora, revirei nossos pertences, o jardim, a casa. Dessa vez, nada foi propositalmente largado, nenhuma desculpa mais. Apenas eu, perdida no meio daqueles sorrisos e olhares, e um certo desalento me roubou o riso.
Ao raiar do novo dia, sem nenhuma esperança olhei o caminho da praia e lá vinha ele, sorriso torto, meio amarelo, que encontrou o meu, divertido, aquecido, esperançoso. Pus as mãos nos quadris "O que você esqueceu dessa vez?" Era pra ser uma brincadeira. Virou um desafio. Se aproximou do meu degrau na escada sem subir e disse me olhando nos olhos "Você".


Depois disso, era um tal de esquece roupa, que tive que abrir uma grande espaço para as roupas que ele largava, mas o que ele mais esquecia era a hora de ir embora. Ia ficando, e quando partia, voltava rápido. Quase nunca lembrava de levar tudo que era seu.

Foram noites a luz da lua, sob as estrelas, fins tarde de um tempo sem pressa, de areias correndo livre de ampulhetas. Um tempo de riso em que tudo era possível até algo tão grande como amor e futuro. Ainda que a liberdade do que acontecia não permitisse conversas sérias, ou o fato de ser um tipo de férias eternas, não permitia saber quando e onde ou como obter segurança.

Mas não se podia esperar muito de alguém tão esquecido, movido, quase sempre, pelo vento. Chegou o dia em que ele teve muito trabalho e se esqueceu de voltar e eu sempre com o olho comprido no caminho da praia, com o olho comprido no céu em busca de condições de tempo em que ele pudesse navegar.

Não chegou o tempo e o tempo mesmo até passou.

Dessa vez ele tinha esquecido, mas era de voltar.


Nunca mais olhar o mar e ver pipas voando despertou o mesmo riso. 

terça-feira, 18 de março de 2014

O medo Grand'Hotel

Ela debatia-se na cama, suando, ansiosa. A cabeça dizendo não e sussurros incompreensíveis escapando dos lábios. Ele acordou assustado. Chamou. Sacudiu-lhe o corpo e ela deixou escapar um grito: "caminhão, cuidado".

- Acorda, acorda Laura. É só um sonho.

Ela abriu os olhos, ainda que não parecesse realmente acordada. Agarrou-se a ele como se estivesse tendo uma visão:

- Eu tenho medo do caminhão, por favor, cuidado com o caminhão - uma mistura de sussurro com choro.

- Laura, não tem nenhum caminhão. Estamos em casa.

Não que fosse exatamente a casa deles, de ambos, estavam no apartamento dele. Era apenas a terceira vez que ela dormia lá e ele achou que talvez por isso ela pudesse estar assustada.

Ela puxou o ar, fundo. Parecia mais desperta agora. Ele abraçou mais forte.

- O que você estava sonhando?

Deitou-se e a trouxe junto ao peito.

-Não lembro direito. Por quê?

- Parecia bem ruim, você estava realmente assustada. Falou em caminhão, pra eu ter cuidado.


Fora uma daquelas ativas e quentes madrugas. Daquelas que parecem querer provar que nenhum caminhão de várias toneladas poderia atropelar tanta paixão.

- Falei?

- Sim, não consegue lembrar?

- Não, ela começou a cheirar e beijar o peito dele.

Ele reagiu automaticamente.

- Nossa, não sabia que pesadelos poderiam ser excitantes - e riu.

Ela continuava beijando e roçando o corpo no dele:

- Vai ver eu tenho medo que um dia o caminhão atropele a paixão.

Ela riu alto e continuou o que estava fazendo. Parecia muito disposta a esquecer o que quer que tivesse sonhado. 


Ninguém lembrou do sonho duas semanas depois, quando uma grande van de entregas de cervejaria perdeu a direção e avançou na contramão sobre a faixa de pedestres. Três pessoas foram  gravemente atingidas. Só ele não sobreviveu.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Assassínios

- Eu o matei - ela gritou, ao mesmo tempo, que bateu o copo no balcão - Eu o matei - repetiu baixinho quando intuiu que todos já a olhavam em busca de uma explicação. Os amigos encararam o último relacionamento dela. Ele observava a cena por cima do taco de bilhar, que tinha parado no meio de uma jogada. Levantou o corpo e esperou ela terminar o showzinho. Uma coisa que ele nunca esperaria dela, sempre tão calma, tão pacífica.

- Eu o matei - a frase agora cuspida declarava que o nível alcoólico já não permitia total controle dos lábios - Eu não agüentei mais - a raiva deu lugar ao choro - Eu precisava me livrar dele. Não suportava mais essa indiferença. Essa mania de me fazer esperar. Essa loucura de me sentir coisa, de achar que eu sempre estaria disponível, que eu sempre podia esperar por sua boa vontade, seu tempo, disposição. Cansei de não ser prioridade. Eu quis que ele sentisse dor. Eu quis... – mais lágrimas – Eu o fiz sangrar, eu fiz com que ele conhecesse como era a dor de esperar indefinidamente pela atitude de alguém, pela ação, carinho, afeto. Mostrei a ele. Ele morreu olhando nos meus olhos. Eu me vinguei!

Algumas amigas tentaram se aproximar para evitar um vexame maior. Ela levantou as mãos.

- O primeiro tiro foi o mais difícil. Foi o mais trêmulo. Os outros dois foram escape perverso. O restante da munição foi só arrependimento mesmo. Eu o matei. Matei tudo que ele significou na minha vida. O abandono, a espera, a impotência.

Um arrepio subiu pela espinha de todos no bar, como se naquele lugar quente fosse possível um sopro de vento gélido, como se só agora eles tivessem conseguido entender coletivamente o sentido do que ela estava contando. Os amigos voltaram a olhar para ele em perguntas mudas, dessa vez observaram um desalinho de cabelo, meio nada a ver com sua aparência quase sempre impecável.

Ela secou o copo, trêmula - mas ele nem imagina como eu morri junto - as lágrimas saindo aos borbotões - Não sei como consegui sair de lá, não sei como estou de pé aqui. Não sei como ele tem coragem de jogar bilhar e falar com todo mundo ai como se eu não tivesse lhe enfiado seis tiros nas fuças!! – raiva, lágrimas, cuspe.

O silencio no bar era absoluto ninguém percebia nem a falta da música alta.

- Eu o matei, porque só assim eu teria certeza que havia um motivo concreto para ele não responder minhas ligações, para não retornar minhas mensagens. Merda, eu o matei por que o amo tanto, tanto, que se tivesse que viver sem ele que fosse definitivamente. Eu não tinha mais coração, para esse ir e vir, esse não aceitar. Esse querer pela metade. Eu o matei - as palavras escapando da boca junto com mais saliva e dessa vez meio tingidas de sangue.

- Vocês conseguem entender isso? Não, nunca entenderão. Em todos os nossos anos de amizade, nunca me entenderam. A gente vinha para cá e a minha única certeza em todas as semanas em que estávamos juntos era que aqui nos encontraríamos. Aqui beberíamos e, com sorte, eu o levaria bêbado para casa. Quantas vezes vocês não me olharam com pena?
Digam? Não tenham mais pena de mim. Eu não sou mais digna de pena. Olhem para ele - ela apontava para a mesa de bilhar - Seis tiros nas fuças e vem jogar como se nada tivesse acontecido. Não aconteceu, não é?
Eu não tenho coragem, não é? Não tenho amor próprio, sangue nas veias, não é? Olhem para ele. Olhem a minha coragem.

E num reflexo instintivo todos os olhos se voltaram para o rapaz próximo à mesa de bilhar o mais galanteador da turma, o mais boa-praça, o que menos levava a vida a sério, além de bagunça dos cabelos, via-se agora uma palidez acentuada no rosto. Talvez o conhecimento do quanto a ferira finalmente lhe causasse algum susto.

- Vocês acham que foi fácil? Vocês acham que matar alguém é fácil? Não, não é. Vocês acham que é só apontar a arma pra quem te tortura e apertar o gatilho?
Não, não é. 
Ainda mais quando o alvo é a sua vida toda. Quando você também é o alvo, quando você tem a tamanha consciência de que as balas, as seis, não entraram nele, porque ele nunca sentiu exatamente nada que me dissesse respeito. 

Ela voltou a encher o copo, voltou a levar bebida à boca. Voltou a expelir saliva. Quem entrasse agora no bar não entenderia um grupo de pessoas hipnotizadas olhavam de um lado para o outro do bar como se acompanhassem uma partida de tênis.

- Vocês acreditam que ele nem correu? Nem teve medo? Acho que atirei mesmo pela afronta. A última. A última afronta foi esse risinho que ele tem na cara, esse risinho de nunca acreditar em mim. Tá ai. Seis tiros, seis buracos.

Os amigos voltaram a olhar em direção a mesa de bilhar, ele agora estava com as mãos na barriga, numa postura de dor, sangue escorria pela roupa.

- O que foi que você fez? - ele sussurrou.

- Eu o matei - ela sussurrou em resposta - e morri também.

Foi quando voltaram os olhos para onde ela estava e ela também tinha sumido.


José entrou correndo no bar onde a turma da faculdade se reunia todas as sextas há quase quatro anos. Tinha uma notícia terrível para dar: O casal mais problemático entre eles estava morto, a polícia não sabia ao certo, mas parecia crime passional.

domingo, 4 de agosto de 2013

Compreensão

Sempre estou disposta a entender, mas, por favor, faça questão de ao menos tentar explicar. Porque, se eu tiver que adivinhar, tenha certeza não será uma versão boa pra você.
Pelo mesmo motivo que mães quando acordam e não encontram seus filhos em casa, elas não pensam que eles estão na balada se divertindo. Elas acreditam logo que eles correm algum risco.
Não sei que gene é esse feminino que tende logo a crer no pior, mas sei que nasci com esse defeito.
Gosto quando você se esforça para me explicar as coisas, não pela explicação ser necessária. Mas porque nessa hora a sua atenção é toda minha, eu sei que você esta tentando imaginar qual explicação vai me convencer.
Apesar disso, detesto quando você só me dá atenção nessas ocasiões. Às vezes me sinto tão invasiva quando teu silêncio se prolonga e eu não sei exatamente o que está acontecendo.
E no fim de tudo pode nem estar acontecendo nada... E esse maldito senso de controle feminino me faz criar milhões de histórias absurdas.
Não, não sei como eu cheguei até aqui com tantas dúvidas e incertezas, pra dizer a verdade nem sei como você me aguenta com tanta cobrança.
Posso até pedir desculpas pelo rompante agressivo, por ter chamado sua prima de vaca e sua ex de puta. Sei que posso me arrepender de tudo, mas sei que todo esse arrependimento não vai ser capaz de desfazer o que eu fiz.
Mas se você tivesse me dito, se você não tivesse essa maldita mania de me esconder as coisas, e se tivesse me contado que esse era um jantar de noivado, talvez todos vocês agora pudessem me ouvir e ter pena de mim. Eu sou tão patética. Mas não você fez questão de me esconder que “seu evento” de família era a celebração de um compromisso, mas que nem era “seu” compromisso.

Agora nenhuma desculpa vai fazer vocês cuspirem o cianureto da sopa de entrada desse lindo jantar de noivado, e posso gastar todas as lindas palavras do meu vocabulário arrependido, mas nenhuma delas vai me salvar quando a polícia chegar com a ambulância que eu chamei quando percebi o engano. 

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Pesadelos

Não havia jeito daquele sentimento abandoná-la, era como uma compulsão, uma espécie de loucura, neurose mesmo. Era só o sol se pôr, e o suor começava a escorrer, muito mais do que em qualquer dia quente. Nunca soube ao certo o dia exato em que começara a ter esses temores. Mas sempre que a noite caía começava a suar e temer a hora de ir dormir. Só que o problema maior não era o medo. Se fosse poderia correr para a cama dos pais e se sentir protegida.
Mas não, seu problema maior era enfrentar e esconder esse medo. Já era quase adulta, tinha nove anos, não achava nem um pouco justo que toda a família percebesse seu terror de dormir. Afinal, eles já tinham seus próprios fantasmas. Isso ela podia perceber bem, pelo modo como a mãe, às vezes, gritava com ela, ou pela impaciência com a qual o irmão mais velho entrava e saia de casa, e também pelas coisas incompreensíveis que falavam, que a faziam pensar em cadeia e tortura, palavras quase sem sentido, mas pelo tom sabia que não era bom.
Era sempre à noite que via o pai sair para a “reunião”. O que fazia sua mãe chorar e pedir, chegando até a implorar algumas vezes, que não fosse. Mas ele tinha convicção:
-           É preciso fazer alguma coisa – ele sempre repetia antes de sair.
Ela sempre lembrava o tempo em que as saídas dele não eram tão dramáticas. Talvez tivesse a ver com a greve. A greve que segundo o pai tinha que acontecer. Ela o ouvia falar sempre: “Assim, não dá mais para continuar a viver”.
Mas antes, antes o pai da Carol não tinha morrido durante a noite. Antes a polícia não tinha invadido a casa da Carol e atirado no pai dela. O pai da Carol era um senhor barrigudo que sempre vinha em casa beber com o pai dela.
Tá certo, ela não era muito amiga da Carol, achava a Carol meio bestinha com seus cuidados com o cabelo e o sutiã que de nada servia, mas que adorava exibir. O problema é que não achava certo que mesmo a menina bestinha tivesse acordado uma noite com os gritos da mãe e que tivesse entrado no quarto e visto os miolos do pai espalhados pelo lençol.
Então percebeu, foi só a partir desse relato que começou a temer as noites, a perceber os rumores diferentes em casa, a tensão da mãe e do irmão. Numa associação absurda achava que era só durante a noite que coisas ruins aconteciam, que homens maus invadem casas e matam as pessoas que amamos. Então sempre que a noite caía, as mãos começavam a suar, a testa, os pés.
Tanto suor a fazia vítima, os pés suavam tanto que sempre escorregava na chinela. Costumava cair, pois a chinela, molhada demais, impedia que se mantivesse sobre ela. A cada queda, um escândalo, ralava os joelhos, via sangue e chorava. Chorava mais pelas lembranças que o vermelho evocava do que pela dor que lhe causava as palmadas da mãe que a mandava não correr, ou o sabão e o líquido vermelho que ardia e a mãe sempre punha nas feridas.
De repente, o medo começou a ficar pior. Uma manhã já tinha medo que a tarde chegasse porque em seguida a noite viria. Outra vez deixou todas as luzes acesas e mesmo assim não conseguia dormir, ouviu barulhos na porta e pulou da cama. Colou os ouvidos na parede e o ouviu entrar balançando as chaves como de costume. Podia voltar para a cama o pai estava de volta a casa.
A cada dia ficava mais incapaz de controlar o suor e o medo. O terror e o desespero. Tinha pesadelos com arrombamentos, com botas, soldados e sangue espalhado em lençóis brancos. Um dia a mãe levantou-lhe o rosto e perguntou se ela não dormia mais.  Ao olhar a mãe percebeu que não era a única a não dormir. Tinha medo, mas não era só ela que tinha medo. Todos tinham, o pai também tinha. Sentia isso, quando todo dia ao chegar em casa a abraçava com mais força. Como se despedisse um pouco a cada dia. Ela sempre ouvia aquelas conversas que a assustavam. 
Até que uma noite acordou com gritos e som de coisas sendo quebradas, tiros. Mais gritos. Alcançou o quarto dos pais e os viu. Viu o irmão mais velho jogado no chão desacordado, o pai morto na cama, o sangue, mas não era mais um pesadelo. Ou então era um pesadelo com cheiro, e dor, porque quando tropeçou no tapete pôde sentir e muito a dor no pé.
Era real.
Ela não iria acordar e ficar aliviada por ter que passar mais um dia esperando por aquilo. Não, estava acontecendo. Sentou num canto do quarto e começou a rir. Rir, de alívio, de felicidade mesmo. Não havia mais o medo de matarem seu pai, ele estava morto. Não havia mais o medo de invadirem a casa, ela estava arrombada. Estava lá. Tudo tinha terminado. Por isso ela ria. Ria com tanta vontade, como já algum tempo não fazia.
Ria.


Márcia Cristina Lima
             08/08/2001